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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Futuro passado

Reparou em cada um dos detalhes da mesa organizada para o jantar. Jamais teria escolhido lírios para a decoração. A entrada estava sem sal, o prato principal crú e a sobremesa, excessivamente doce.
Na verdade, ela futuro do pretérito tudo. Tudinho.

Teria escolhido tons de azul, no lugar do pálido rosa eleito pela anfitriã. Arranjos com flores do campo, seriam mais alegres do que os lírios. Prepararia a receita de família, perfeita para uma ocasião como aquela. Vitelo tonné, seguido do capelletti da Nonna e o manjar dos manjares - pudim de leite, com furinho e tudo! Seria perfeito. Receberia a todos com alegria e prazer. Viveria o momento, pois saberia que a felicidade é feita de instantes, entregaria o melhor de si, conversaria sobre trivialidades, política e besteiras. Falaria muita besteira, principalmente depois que tivesse tomado mais vinho do que acharia correto. Quebraria as regras de vez em quando. Sussurraria obscenidades ao pé do ouvido de seu amado. Lançaria olhares que somente ele compreenderia. Receberia outros de volta. Os convidados elogiariam a recepção, a noite agradável. Precisamos repetir mais vezes, diriam.

Mas o tempo vivido foi outro. E este, não se realizou.

Flores de Itaipava, RJ
foto: Sylvia Beatrix





terça-feira, 30 de outubro de 2012

Surdez

Braços cruzados, apoiada no portão da frente de sua casa geminada, no bairro de Pinheiros. Cabelos brancos, curtos e lisos, avental puído com o nome de loja de cama e mesa, bordado gasto e marcas de gordura. O vestido também já teve vida.

- Moça, por favor. Desculpe interromper a sua caminhada, mas gostaria de saber se você ou alguém de sua família recebem pensão do INSS.

Com pressa e sem ouvidos, uso as mãos na tentativa de descartar a conversa. Inútil. A senhora é mais hábil e bondosa do que eu, consegue esticar a conversa.

- Sabe que agora estão pedindo prova de vida, assim, sem avisar? Num mês você recebe a pensão direitinho, no outro, nada! Estou fazendo uma campanha, aqui no portão, para avisar o maior número de pessoas que posso. A senhora é fotógrafa?

O coração estava acelerado, sinal de que você não estou onde gostaria, nem tendo a conversa que desejava. Se o coração queria sair, nem que fosse pela boca, um dos ouvidos começou a se interessar pela senhora. O outro continuou surdo.

- Eu não conheço por aqui um lugar para consertar câmeras, mas na Rua Quintana sei que tem. Só não sei que tipo de conserto eles fazem. É possível uma coisa dessas? Olha, desculpe te interromper assim, mas foi a única maneira de avisar as pessoas. Pedem prova de vida sem avisar!

O coração ansioso para sair pela boca e o ouvido surdo, ganharam. Sorri e fui embora.





terça-feira, 12 de junho de 2012

Marfim


Estar ao seu lado
Liberdade clichê
Algumas surpresas
Você
O solo caminha meus passos
De sonhos estrelas despertam 
Uma grande aventura
Viver


sábado, 19 de maio de 2012

Babel


nove e vinte e quatro trinta e seis minutos para estar dentro do carro será que vai ter transito não está chovendo isso é bom a empresa fica perto nada mais é perto nesta cidade nem a pé nem de bicicleta coisa estúpida essa agora todo mundo resolveu pedalar na calçada na marginal em cima de velho cachorro jovem foco termina de fazer o que você começou kit promocional pen drive laptop check list nem sei quantas vezes conferi este material practice makes perfection Oi, querido, não posso conversar agora, me chame mais tarde, estou saindo para a apresentação. agora vai perguntar Qual apresentação? eu falo ele não escuta eu vejo e finjo que não percebo assim levamos nem me importo mais cada um tem o que merece o que eu mereço é isso um bundão dez vezes bundão O material no qual tenho trabalhado como uma besta nos últimos quinze dias, darling, esqueceu? offline resolvido infraestrutura fraca ajuda nessas horas cai o sinal da internet corta a conversa chata cadê a chave do carro achei na bolsinha preta tá aqui e a chave do apê do john também passo lá depois tô precisando dele tenho que escovar os dentes antes de sair batom sombra rímel delineador prá disfarçar essa droga de lifting cadê a escova bolsinha verde aqui tá tudo aqui esse cabelo tá um horror marcar para o sábado no salão mudar a cor retocar a raiz castanho escuro mexas melhor deixar como está equipe que está vencendo não se troca preciso de um ar mais jovem cara de mãe do john nem pensar cadê os óculos nove e vinte e seis vai dar certo estou preparada sempre estou over preparada nada pode me abalar só eu mesma a dora diz isso sempre oito anos falando a mesma coisa duas vezes por semana sou maior que isso vai ser excelente como sempre nove e trinta saio em meia hora ar sumiu pânico malditos morcegos no estômago pressão ar preciso de ar cadê o saquinho preciso respirar aqui não dá funcionário olhando melhor no banheiro pegar o saquinho a bolsa minha vida na bolsa respirar no saquinho que fica dentro da minha vida que cabe numa bolsa pânico suor é só a minha cabeça inspira... expira... vai dar certo... estou acostumada... i'm really used to... inspira... expira... escuta aqui mocinha você tá preparada muito preparada este mercado é seu ninguém é tão preparada quanto você nem a helena sabe o que você sabe nem tem os clientes que você tem esquece essa traíra inspira... expira... toda vez a mesma coisa tomo um calmante melhor não eu consigo já consegui outras vezes muitas vezes centenas de vezes grupos grandes pequenos médios inglês alemão espanhol fluência prática desde pequenininha aprendi faça assim faça assado repete outra vez e mais outra e repete tá errado de novo repete practice makes perfection repassei várias vezes a lista de presentes tudo em inglês cool keep cool inspira... expira... dez anos neste mercado ninguém faz este trabalho como eu ninguém inspira... expira... é só mais uma turma a última pacote entregue serviço feito tudo perfeito sou perfeita vou arrasar merda dez horas Tô atrasada!


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Simplicidade

Café da manhã é minha refeição predileta.
Nonna Nelly dizia que devemos nos alimentar pela manhã como um rei, almoçar como um príncipe e jantar como um mendigo. Ela também possuía um prato, que ficava pendurado na parede da cozinha, na casa da Rua Baiburuas com a seguinte frase: "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe."
A rua não existe mais com este nome, hoje homenageia o parente de algum vereador de São Paulo. O prato se quebrou, mas o hábito de tomar café da manhã como uma rainha, permaneceu.
Pães, frutas, cereal, leite, manteiga, margarina, geléia de laranja... organizo tudo na mesa da cozinha. Gosto de ver a mesa completa parecendo buffet de hotel. Isso acontece por aproximadamente quatro dias, na sequencia da exagerada compra do supermercado. Pequenos prazeres.
Sem o café, do tipo que não precisa fazer força prá sair do bule, preto mesmo - o dia não começa.
Tenho em casa uma linda cafeteira espressa - só usada em ocasiões especiais - e uma outra do tipo italiana, sextavada, de alumínio, que você coloca a água na parte inferior, depois o filtro - coloca o café sem forçar a barra - e por último a peça que precisa ser rosqueada e que será o depósito do ouro em líquido das minhas manhãs.
As duas peças se quebraram. Descobri isso logo cedo, preparando minha mesa real.
O mal humor começou a se instaurar, a ponto de pensar na possibilidade de tomar chá de maçã no lugar do café. Idéia de girico! Chá de maçã? E a cafeína, como fica?
Antes que eu me encontrasse com algum ser vivente em casa e pusesse a vida dele (ou dela) em risco, me lembrei de um brinde que meu marido ganhou no final do ano passado. E que eu desdenhei.
Lá estava ela... pequenina, com suporte em alumínio, um coador com cara de infância e uma xícara vermelha, de ágata. Voltei no tempo.
Ferver a água, acrescentar o pó ao coador, posicionar a xícara e esperar o meu despertador matinal escorrer despertou em mim tantas memórias quanto novos pensamentos.
Envolta em tantas "nespressos", cafeteiras possantes, chiques, deslumbrantes e deslumbradas, há muito tempo eu não apreciava o lento processo de coar o café.
Ferver... dosar o pó... aguardar.

Simples assim.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Se ventar...

Mais um dia...
Ouvir o despertador, pernas e olhos pesados, levantar.
Preparar o café, tomar banho, desjejum.
Caminhar até o ponto, sacudir em pé no ônibus, trajeto.
Bater o cartão, ligar o computador, bom dia, posso ajudar?
Marmita fria, arroz sem mistura, refeição.
Outro telefonema, café sem gosto, boa tarde, posso ajudar?
Sair as cinco, chegar às oito, trânsito.
Abrir a porta, cômodo para arrumar, solidão.
Deitar tarde, sem janta nem tevê, que vida.
Melhor dormir, sem suspirar.
Está que é só o pó...



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Esporte mundial. Reclamar.

Deve ter sido no primeiro choro. Ali, naquele instante, saímos do aconchego uterino e abrimos o berreiro: quero voltaaaaaaaaaar!!!! Reclamação marco zero.
Quem gosta do BBB, reclama do que acontece na casa. Quem não gosta, reclama dos que gostam do BBB. Política, nem me fale! Devemos estar universalmente no fundo do poço, pois nada de bom acontece nesta esfera. Se existe vida além do planeta Terra, cheio de água poluída, eles devem estar com pena de nós. E reclamando do que pode vir a acontecer, caso este planeta... puff!
Faço parte dos que reclamam. Meu marido diz que sou PhD nesta arte. Meus filhos e enteados também. Minha mãe também. Bom, meu pai já morreu então... deixa prá lá.
No dia que tenho que fazer depilação, aumentam exponencialmente as minhas reclamações. Quem foi que inventou esta porcaria? Quem disse que mulher tem que estar totalmente sem pelos? Por que precisamos passar por esta tortura... e por aí vou eu até o Instituto de Depilação Irani.
Os pormenores da preparação, vou poupar a todos. Quem conhece sabe do que falo, quem desconhece pode perguntar para a amiga ao lado. Ou para o amigo ciclista ou gay. Eles sabem como é.
Entre uis e ais, a conversa com Alê, a depiladora, vai se desenrolando. Mulher fala mesmo, até quando depila e os assuntos são muito variados. Afinal, alguma coisa precisa nos entreter naqueles 40 - 60 minutos de tortura.
Sempre levo um livro para me distrair e isto acaba chamando a atenção e o assunto "voce le muito? o que está lendo agora?" se inicia. Alê estava envolvida com livros espíritas, depois de abandonar a religião evangélica. Fico curiosa e começo a perguntar, o que houve, como foi isso, qual o problema. 
Em 2011, Graça a filha de 10 anos da Alê, foi diagnosticada com um câncer raro. A doença só foi descoberta, pois Alê cismou com uma bolinha na sola do pé direito da filha que 6 médicos insistiram que era olho de peixe. Ainda bem que o 7o. resolveu ouvir mais atentamente esta mãe e descobriu o que era.
Graça perdeu os lindos cabelos negros. Alê ganhou uma força que disse nunca ter conhecido antes.
Quando terminamos o papo e a depilação, emocionada Alê me disse: "E voce acredita que minha filha nunca reclamou?"
Fiquei envergonhada.




domingo, 15 de janeiro de 2012

Maria Dilma, quase uma lady

Depois de quase dois anos morando na Alemanha, volto para Vila Madalena, São Paulo, Brasil.
Confesso que não queria. Ficava assustada pensando na possibilidade da minha loirinha de apenas três anos ser seqüestrada à tarde em um shopping center lotado. Deixava uma cidade com aproximadamente cem mil habitantes, retornando à cidade dos milhões. Milhões!

Não é fácil se acostumar com idioma diferente, cheiros e sabores estranhos, neve na entrada de casa que você mesma limpa, sistemas super organizados ou não conseguir comprar o pãozinho para o café. É muito fácil se acostumar com a sensação de segurança, espaços bem cuidados, andar de bicicleta por todos os lados, abdicar do carro pois a cidade é plana e pequena, ter o marido de volta em horário regular e ainda aproveitar o tempo livre durante a semana com a família. É isso mesmo, DURANTE a semana.

Tudo isso estava ficando para trás e o que vinha pela frente, precisava de ajuda. Eu precisava dessa ajuda, pois voltar a trabalhar estava nos meus planos. Vamos contratar a empregada doméstica antes que o container desembarque a nossa mudança. Estávamos em mil novecentos e noventa e quatro.

Como ela apareceu, eu não me lembro. No Brasil, todo mundo tem alguém que pode indicar outro alguém para trabalhar. Um dia, tomando café no posto de gasolina perto de casa, a conversa entre o senhor de cabelos brancos e a atendente do Select já estava avançada nas tratativas de contratação. A loja estava prestes a perder uma funcionária. Minha mãe não é agencia de empregos e muitas vezes a consultam quando se trata de obter ajuda doméstica. Se voce frequenta sempre o mesmo supermercado, conhece desde o caixa até a pessoa que te ajuda com as compras, garanto que esta é uma boa fonte de contatos. A santa Luzia que trabalha para mim hoje em dia, veio direto de uma indicação no Pão de Açúcar. Esta mulher também é digna de uma crônica. Terá seu dia aqui no blogue.

Cento e quarenta e sete centímetros, vinte e sete anos e aproximadamente cinquenta quilos, com os quais vivia em briga constante. Cabelos crespos, alagoana, libriana, fumante e, de acordo com ela mesma, quase uma lady. Maria Dilma, muito prazer.

Sempre muito direta e clara, de criança e cachorro não cuidava, não dormia fora de casa e não gostava de se envolver na vida "dos patrões". Cozinhava "o normal" e queria os finais de semana livres. Perfeito, estava na medida para as minhas necessidades. Este foi o nosso começo, em um pequeno apartamento na rua Purpurina, com dois quartos, um casal, uma criança e nenhum cachorro.

Adorava um papo. Boa de prosa mesmo, atracada com a vassoura ou com uma pilha de roupa para lavar e passar, quem desse trela a ela tinha dificuldade de se despedir. Dilma passava de um assunto a outro facilmente, sem dar espaço para o interlocutor concordar, discordar ou ainda ter opinião. Ôxi... era a deixa para algum comentário. E que fosse feito rápido.

A "quase lady" tinha um sonho. Queria voltar a estudar e fazer faculdade de assistencia social. Saiu muito cedo de Alagoas para tentar, como tantos, a sorte na cidade grande. Também queria deixar para trás a triste vida, as brigas com o pai, a mãe que não se manifestava e o espaço que era pouco.

Treze anos se passaram desde o primeiro encontro. Dilma cuidou de criança, depois cuidou de duas crianças e um cachorro, dormiu fora de sua casa, participou de um divórcio e de um novo casamento, mudou de casa comigo três vezes até que o seu sonho pulsou fortemente, não permitindo mais que fosse adiado. Tchau Dilma, até a próxima.

Mantivemos contato por telefone, Natal, aniversários ou apenas para fofocar. Continua sendo difícil desligar o telefone quando nos falamos, ela ainda fala muito! Foi por telefone que fiquei sabendo que ela concluiu seus estudos graças ao supletivo, prestou duas vezes o vestibular para assistência social, entrou na faculdade e passou direto em seu primeiro ano como universitária.

Depois de quatro anos sem nos encontrarmos, hoje foi dia de uma cervejinha com a Baixinha. Ela voltou à nossa casa - misto de trabalho e lazer - com a família  reunida e colocamos todos os assuntos em dia e a saudade cedeu um pouco.

Se o valor de uma pessoa pudesse ser medido em números, a soma deste texto ainda ficaria devendo à Baixinha, que é muito mais que uma lady.

sábado, 26 de novembro de 2011

Sábado de Noemi

Jantares como aquele não eram novidade. As mesmas pessoas, o mesmo restaurante, os mesmos pratos. A diferença estava no sorriso. E só no dela...
Claro que já tinhamos visto seu sorriso em outras situações - em seu próprio casamento, nas festas de final de ano ou com a piada besta contada no churrasco. Aquele era novo.
Suas mãos insistiam em fazer malabarismos e piruetas, sorrindo junto com os lábios. Até os cabelos, quando balançavam, sorriam...

Isto sim é felicidade, pensei. Ultrapassa a fronteira do corpo, se espalha ao redor e marca um momento. Único.

Com este sentir, acordei no dia seguinte e sorri.
A sexta, foi de Celina...
Hoje, será um sábado de Noemi...


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