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sábado, 24 de dezembro de 2011

Um conto de bacalhau


Depois dos quarenta, quem nunca usou óculos começa a sentir a necessidade de usá-los. Tudo o que está mais perto fica embaçado, como por exemplo o rosto dos seus filhos quando vai beijá-los ou as letras dos jornais e revistas que ficam bem menores. Sacanagem.
Portanto, quando este momento chegar, sempre - eu digo SEMPRE, vá ao supermercado com seus óculos.

Amigo secreto sorteado via internet - uma diversão! A sua sobrinha internética faz perguntas, responde e ri sozinha no grupo. Uma farra!

A lista de quem leva o que também já está pronta - a madrinha se encarrega das frutas, a Nonna leva o tender com purê de maçã, os amigos vão trazer o frango com as maravilhosas batatas, sua irmã e o filho chef de cozinha, as sobremesas. E você, o bacalhau. Ninguém pediu, você se ofereceu.

Chegou o Natal. Lista de supermercado em punho, as crianças te acompanham para a saga de fazer compras no dia 23 - uma cuida dos itens para o café da manhã (os primos sempre dormem em casa), outra vai cuidar dos petiscos e aperitivos. E você, como não poderia deixar de ser, vai cuidar dos itens para o bacalhau. E sem óculos.

Fase 1. Por mais de 24 horas o bacalhau fica de molho prá dessalgar. Várias trocas de água e a derradeira no leite. Isto eu já sabia. A novidade surgiu quando começou a luta para separar a pele. O que era isso? Puxa de um lado, passa faca afiadíssima de outro - e nada. Cavoca ali, levanta acolá e a pele resistindo. Você liga prá sua mãe, torcendo para que haja um método mais simples. Tem sim, comprar pronto ou congelado, sem pele e sem espinhas.  Piadinha mais fora de hora...

Terminada a fase 2, pele arrancada, na fase 3 descubro que, na vida de um chefe de cozinha a parte mais importante é o auxiliar de cozinha. Ele picada, descasca, lava, separa, coloca nas medidas certas - e provavelmente, também teria tirado a pele. Mas você não tem um auxiliar de cozinha.  Cebola, alho, tomates e ovos estão todos à sua espera. A azeitona portuguesa também. Como você foi sem óculos para o supermercado ela está... com CAROÇO! Qual a razão de escreverem com letras tão miúdas nas embalagens?
Cebola refogando no azeite  e o bacalhau acompanhando o cozimento, é hora de se dedicar às azeitonas... uma a uma... Incrível como podem ser tão diferentes uma das outras.  Algumas só de olhar, o caroço sai. Outras, você dá tres pulinhos e pede prá São Longuinho  te ajudar a encontrar uma maneira mais fácil de tirar esse caroço.  Suspira e pensa... ainda bem que vão mastigar mesmo, assim não percebem a diferença entre azeitona sem caroço e azeitona esmigalhada. Muitas ficaram esmigalhadas. E não tenho muita certeza se alguma azeitona foi para o lixo e o caroço para a panela...

Agora é só esperar. O tempo e o fogo baixo farão todo o resto. Satisfeita, sorrio - logo todos chegarão e o momento de partilhar um dos momentos mais amorosos do ano se aproxima. 

Torcer para o bacalhau não estar muito salgado...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Desfecho único


Bateu forte e pausadamente antes de entrar. Por hábito não por cortesia. Antes do terceiro som seco na madeira, a porta se entreabriu. O cheirume escuro, fétido e abafado, entra em suas narinas e encontra em seus pulmões um lar. Sorri.

Cinzeiros entupidos e espalhados no canto da sala, sobre a pia da cozinha, na mesa de jantar e pacotes de cigarro ainda fechados... que déjà vu. Como são repetitivos... Bitucas pelo chão, carpete queimado, cama desfeita. Eu poderia ter vindo aqui antes...

Caminha como se flutuasse pela quitinete, afastando de si as latas amassadas, pratos com restos de comida e roupas que encontra. Está em casa. Em mais uma.

O laptop aberto sobre a mesa de centro, ilumina o suficiente. Um sinal de vida pisca... pisca... pisca... na tela de cristal líquido... pisca... pisca... pisca... continuo... ritmado... pausado... pisca... pisca... pisca... Um dia você também irá parar....

Irradiando incoerência sobre a mesa, pousa uma pequena colher de prata. Em seu cabo torto está gravado Cristiano Anderson, 4  de agosto 1975.  Hoje em dia não fazem mais isso.... Presente para recém nascido é fralda descartável, colher de plástico e comida de potinho. E ainda assim sobrevivem.

Organizados ao lado da colher estavam a vela, os fósforos queimados, a seringa e o pó branco. Ordem, alguma sempre precisa existir.

Recostado na poltrona puída, estava o motivo da visita.
A silhueta azulada e sem pulso,  queixo encontrando o peito e braços pendendo ao lado do corpo tinha em seu colo um livro. "O limpador de chaminés - Hans Christian Andersen". Exageradamente óbvio...

Cutucou a massa inerte e ordenou. Venha.
A sombra do que antes era um ser desprendende-se do corpo e obedece ao comando. Confusa, atordoada, sem o peso da matéria mas com as amarras da vida pregressa cumpriu a ordem imposta.

Idiotas insistentes. Vamos para o próximo... 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Família, família


Meu pai era pão duro e adorava robôs. Seus ídolos eram o Tio Patinhas e o Professor
Pardal. Desnecessário explicar.

Guardava as migalhas de pão para fazer farinha de rosca. Não só as dele. Hoje alguns de seus hábitos, considerados bizarros na época, deixam qualquer militante do Greenpeace orgulhoso. Alguns, ainda são bizarros, independente da militância.
Essa mania de guardar tudo e reutilizar fez com que criasse seu próprio esconderijo. A famosa, entre amigos e familiares, "Casinha".

Tijolos aparentes, telhas de cerâmica, porta e janelas de madeira marrom, originalmente uma casinha de boneca para que eu e minha irmã tivéssemos onde brincar. Como se o imenso quintal e o pomar fossem insuficientes para nós duas, os três cachorros, os galos e galinhas que corriam por ali. Em pleno Brooklin, um mini sitio.

Minha irmã se encantava com as goiabeiras, o limoeiro, os pés de cana, a laranjeira e ficava boa parte do seu tempo livre, brincando por ali. Eu, ficava enfiada em livros e televisão - era uma chata mesmo. A "Casinha" ficou abandonada. Por pouco tempo.

Inconformado com o desperdício de tempo e dinheiro investidos, materiais e otras cositas más, meu pai apropriou-se do local.

Quinquilharia era o que não faltava. Bule sem tampa, luminária com fiação estragada, ferro de passar roupa quebrado. Pensou em alguma coisa velha, quebrada, capenga? Tinha.

Suas ferramentas, chave inglesa, serrote, martelo, porcaparafusoprego foram todas para o novo habitat. Para alívio de minha mãe que não aguentava mais tudo aquilo na sala. Organizado é verdade, mas ainda assim, estavam na sala.

As inúmeras caixinhas de fósforos, com os respectivos já usados dentro, os tocos de cigarros e os maços de Continental sem filtro, ocuparam um lugar especial. Sempre achei que ele fumava tanto, um seguido do outro, para aproveitar o fogo de um cigarro já aceso. Imaginação fértil de menina, é verdade, mas meu pai dava margem a pensamentos esdrúxulos como esse. Ô, se dava... parava na rua, de sopetão para pegar moedinhas - qualquer moedinha. Chegou a comprar uma carteira nova com as moedas recolhidas - a velha, deu prá mim. Sem moeda. Nem de um centavo. Nada.

Após o jantar, entrava na "Casinha" e por lá ficava até bater o sono. Tinha tudo o que precisava. Televisão, aparelho de som e radio amador. Se tivesse cama e um mini bar, deixaria de ser "Casinha" e passaria a ser "Lar". Dele.

Do lado de fora, ouvir o barulho do serrote, da furadeira ou das marteladas, deixava mãe e filhas curiosas. Algumas vezes, a atividade praticada gerava um apagão. Estávamos acostumadas, só irritava quando acontecia no dia do ultimo capítulo da novela.

Com ele descobri a palavra traquitana. Ele dizia que era robótica, em estado inicial e puro. Aceitei, pai é pai. Em sua biblioteca, títulos curiosos "Eu, autômato" e escritores arrojados como Isaac Asimov ou Aldous Huxley estavam presentes. Domingo, era dia de acordar com Strauss e seus marcantes tímpanos e tambores, acompanhados das trompas e trombones e aquele tãntãããn!!!!! fabuloso de "Also Sprach Zaratustra". Eu ficava esperando a hora que uma nave espacial entraria pela janela do meu quarto.

Continuo esperando.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

bunda

"Boca foi feita para ser beijada minha filha."


Causei espanto em muita amiga, lá pelos meus quinze anos, quando dizia esta frase.
Nessa época, ao redor de 1978, cabelos brancos arroxeados eram comuns. Pelo menos na minha casa. Ensinar a fazer tricô e crochê, também. Fiz muito casaquinho e sapatinho para instituições de caridade, observando as laçadas e cruzadas de agulhas que as mãos de minha vó orquestravam.

Dona Lygia ou Alfacinha, foi quem me ensinou a usar linhas e agulhas e a não ter medo de beijar.

Professora de piano, tinha os dedos longos e a pela mais macia da paróquia. Vaidosa, estava sempre arrumada, levemente maquiada e sempre - sempre! - perfumada. Detestava budum.


Desde essa época, ela tinha cara, jeito e maneiras de avó. Diferente de hoje em dia, quando você não consegue identificar quem é a neta, a filha ou a avó. Quem a visse na rua, acompanhada de seus filhos e netos, sabia exatamente quem ela era.

Sua coroa era sua cabeleira arroxeada.

Linda, imponente e altiva, a ponto de, não raro, em nossos almoços dominicais, alguém no restaurante se aproximar por trás dela - ao mesmo tempo que com as mãos em concha tocava sua cabeça - dizendo: de quem são estes cabelos mais lindos!?


Situação parecida a esta, vivenciei anos depois, quando nasceu minha primeira filha. Confesso, era um saco a cada ida ao shopping center, as pessoas parando e dizendo "que coisinha mais linda..." e eu fazendo cara de poucos amigos. Hoje, penso que só minha vó para ter paciência semelhante a de Jó para sorrir, virar-se e dar atenção a estas pessoas. Alfacinha, era uma santa!


Meu primeiro diário foi presente dela, quando completei quinze anos. Capa plástica verde, com centro de fundo branco onde havia uma rosa vermelha. Na primeira página, em sua belíssima caligrafia e provavelmente escrita com BIC azul, estavam os versos:

Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Depois de um casamento desfeito e várias mudanças de casa, esta frase é tudo o que restou deste diário...
Ela adorava a língua portuguesa. Adorava mesmo! Vivia nos corrigindo ao menor deslize. Tinha orgulho da mãe professora e do irmão, José Castellões, professor de latim. Pronunciava algumas palavras, procurando a expressão da sonoridade perfeita, da construção gramatical exata. Ficava inconformada com o que ouvia na rua. Estão acabando com o português minha neta... uma tristeza... uma tristeza, dizia quando retornava das compras.


Caminhava muito, ia para todos os lados do bairro de Moema até o dia que se deparou com a crueldade da cidade - caiu no golpe da "mulher passando mal na rua" quando teve seu apartamento assaltado e alguns meses mais tarde, as calçadas da cidade lhe deram uma rasteira e passou a usar bengala. Nasceu o receio de ir e vir e começou a ficar mais em casa.


Foi aqui que começou sua despedida. Despedida longa esta, que terminou no Carnaval de 2009, aos noventa e oito anos no dia do aniversário de seu já falecido filho, Fernando. Mas, não antes de passar a seus bisnetos, algumas jóias de sua sabedoria, quando lhes dizia:

- Bizinhos... nossa língua é linda.. sonora... rica. As palavras bem ditas, enriquecem quem as ouve... Algumas palavras, mais do que outras, e para mim, meus queridos, não há palavra mais gostosa de se falar do que bunda. Vejam como ela enche a boca, faz saltar as bochechas...buuunnnda.


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