sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O ser humano, seu desenvolvimento e sua relação com o Zodíaco

Erra grandemente aquele que confunde o espírito ou a inteligencia com a Alma.
Não menos erram aqueles que confundem a ALMA com o CORPO.
Da união do espírito com a ALMA, nasce a razão.
Da união da ALMA com o corpo, nasce a paixão.
Desses tres elementos,
a Terra deu o corpo
a Lua deu a alma e,
O Sol deu o espírito,
Através dos quais o homem justo consciente de todas essas coisas, é, a uma só vez,
Nesta vida física um habitante da Terra, da Lua e do Sol.

Plutarco, 120 aC
-- 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Caminhar

Trago em minha história
Nem sempre boa memória...
Dores, tristeza e temores
Nada que curem, os melhores doutores.
Rancor, amargura e solidão
Endurecem o meu coração.


Trago em mim a história
Que delineia minha trajetória...
Pedras, chuvas e vales
Fizeram parte de todos os males.


Em mim, trago uma história
Que pode ser notória,
Ter glória e contar vitória.


Pois em mim, trago também
O poder de olhar além,
De reconhecer que sou alguém
Que pode fazer o bem


E que consegue, acolher também
A sua própria memória.

(a todos os meus colegas do Grupo XII - Preparatório Formação Biográfica)

domingo, 24 de outubro de 2010

As voltas da vida

Avisada que essas coisas, mexe-vira, remexe-volta, acontecem - isso foi.
Crer, prá que?
Tocou a vida, virou-voltou, remexeu-mexeu e deu no que deu - a vida voltou e ela agradeceu - a quem jamais imaginou um dia agradecer.

domingo, 17 de outubro de 2010

Perfume de Guimarães

O coroa destro jogou a roupa sobre o abajur sem se dar conta do perigo que corria com seu gesto.
A fina lâmpada quente, após horas a fio iluminando o pequeno cômodo, não precisava de muito estímulo para partir-se em vários pedaços e, se o infortúnio estivesse espreitando o ambiente, com seu calor inflamar a pinga derramada sobre a mesa.
Se tivesse, por alguns instantes, pensado em seu ato, agiria de forma a concretizar a possibilidade. Para ele, perigo era a sensação de peso que ora possuía, dos anos acumulados, da coroa dentária mal feita, da roupa surrada que o envergonhava e o hediondo abajur, acusador, mostrando o exato tempo que havia passado... era um destro acabado.
As estúpidas topadas que seus incansáveis tortos pés deram ao longo da vida, só criaram calos e dores que hoje o imobilizam.
Em sua cabeça, apenas as palavras soltas e desconexas, acompanhadas dos objetos inexpressivos, lhe davam direção: roupa, coroa, perigo, abajur... e aquela que mais rancor lhe causava, destro!
A vida inteira lhe pareceu acontecer à esquerda...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Oração

(sinal da cruz) Em nome do Shakespeare, do Neruda e do Chico Xavier...
Meu querido São Papaqueô, venho humildemente diante de suas páginas implorar sua compaixão. Estou sem criatividade, não consigo escrever uma linha sequer... deve ser praga do Sarney, pois assinei a lista a favor da saída dele da Academia Brasileira de Letras.
Não, meu santo... de maneira alguma assinei a lista para abrir uma oportunidade prá mim... quem sou eu!? Meu santo, eu te peço... ilumine minha mente com palavras belas, que quando se juntam com outras compõe um bom texto. Peço um bom texto, pois sou humilde, meu santo... não quero abusar de sua benevolencia. Mas aceitaria de bom grado uma inspiração tipo... Maria Claudia. Não quero que me tome por invejosa, meu santo... Deus me livre e guarde! Mas acho que o senhor tá sempre zelando por aquela boa alma... Ai, meu São Papaqueô, tende piedade de mim... Ontem mesmo passei diante de uma livraria e fui direto até a sessão de dicionários prá ver se acontecia algum milagre da tradução... É meu santo... da tradução, pois eu me enganei e estava diante de literatura estrangeira e como eu não queria perder a viagem, orei ali mesmo... Eu tinha que voltar pro trabalho, o senhor sabe como é isso. Ai, meu santo, que besteira... sabe nada, desde quando santo trabalha com horário! Ó meu senhor... feliz é a Marilei que prá onde olha sai texto... se não sai texto, sai foto... é a própria editora em forma de mulher... pobre de mim, meu santo... por isso estou aqui diante de ti... suplicando que derrames sobre mim tuas bençãos. Estendo, diante de ti minhas mãos, meu caderninho de anotações, o lápis e meu laptop...
Senhor, só peço que tenha piedade de mim e do meu saldo bancário e que essa criatividade toda não dependa de viagens internacionais pela Italia, India, Indonesia - ou qualquer outro local tão paradisíaco e perfeito para cenários cinematográficos - pois meu caixa tá baixo no momento...  Creio que um passeio por Cabreuva, Itu e Sorocaba já ajude neste quesito... 
(sinal da cruz) Em nome do Shakespeare, do Neruda e do Chico Xavier... amém.


sábado, 9 de outubro de 2010

Companhia

Apenas um lembrete, que esquecemos com muita frequencia: fazer companhia a si mesmo é o melhor remédio.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Observando

Conversa em um SPA.
Uma delas, com o livro "Magra e Poderosa" em mãos e jogando exclamações para todos os lados. "Nossa que porrada!" "Aqui tá me chamando de vaca e imbecil o tempo todo!"
A todos que passam, também acima do peso, recomenda: voce precisa comprar este livro! Só diz verdades!
Conclui: o leite de vaca é o mal de todos os males. Decide trocar pelo leite de soja.
Será que encontrou a solução definitiva?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sobre o amor e o tempo

Quando medito totalmente isolado
Sobre diversas coisas de meu passado,
Quando ergo castelos no ar
Vazios de medo e de pesar,
Adulando-me com doces devaneios,
Sinto que o tempo passa ligeiro.
E todas as minhas alegrias comparadas a esta são doidaria
Nada mais doce que a melancolia.
Quando desperto e totalmente isolado
E me lembro de todo o mal praticado,
Meus pensamentos então me tiranizam
E o medo e o pesar me infernizam.
Se me detenho ou me quedo no mesmo lugar,
Sinto que o tempo se move devagar.
The anatomy of Melancholy (A anatomia da melancolia, Robert Burton, 1621)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O vaso

Droga, meleca, porcaria...

Hoje eu não saio daqui. Vou ficar bem quietinho. Ainda bem que tá frio, assim parece que eu ainda estou dormindo. Se abrirem a porta, fecho os olhos. Se chamarem meu nome, finjo que não ouvi. To sentindo meu coração na barriga. To sentindo um frio na barriga. Nem sabia que a barriga sentia tanta coisa assim. Até parece que foi ela quem quebrou o vaso ontem. Vou cobrir a cabeça com o cobertor e enfiar a cara na parede – assim a mamãe não me vê. Vai pensar que já saí prá brincar. Mas e depois, quando eu voltar? Como vai ser? Me escondo! É isto, me escondo, ninguém me encontra e vão ficar tão preocupados que nem vão se lembrar do vaso. O vaso, ai, o vaso... Quanto tempo precisa prá alguém esquecer alguma coisa? Os cacos já foram descobertos? Acho que sim. Não, acho que não, se a mamãe já tivesse encontrado o vaso morto, teria entrado no quarto e me tirado da cama. A Gabi viu e vai contar prá ela. Intrometida. Se ela contar prá mamãe eu conto que ela não é mais BV. Acho que isso é pior do que quebrar o vaso da bisa. E se não for? To danado... Que vontade de levantar. Não vou. Deus me livre! Como vou contar? Não vou contar. Conto ou não conto? Melhor não, ela nem vai reparar... Vai sim, ela repara em tudo. A culpa não foi minha, mas ela vai dizer que foi. Ela sempre diz que eu sou o culpado. Tô ficando com fome, queria tomar café. E sair daqui? Melhor não... Droga, agora a barriga tá roncando... Que barriga agitada! Vou me ferrar por causa dela – fica aí, roncando, cheia de fome, eu me levanto, vou prá cozinha e dou de cara com a mamãe. Essa barriga não tá me ajudando! Pára, barriga... pára! Vou dormir, isso... dorme, Tiago, dorme... Não consigo. Minha perna já tá doendo de tanto ficar aqui encolhido. A barriga roncando de novo... ai que fome... Meu Yakultinho... acho que ainda tem um na geladeira. E se a Gabi tomou o último? Ela me paga! Ai que fome!!! Vou levantar, tá tudo quieto... A mamãe deve estar dormindo ainda. Isso, levanto, tomo meu café, volto prá cama e me escondo de novo debaixo das cobertas... Isso mesmo... vou bem quietinho, sem fazer barulho, pé ante pé, ninguém à vista, corredor livre, porta da cozinha logo à frente, vai dar certo...

- Tiagoooooooo!!!!!

Droga, meleca, porcaria. Acharam o vaso...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Tempos de escola



Riobranquinos queridos.
Alguns perto, outros longe - mas às vezes sinto que ainda estamos na mesma sala. Talvez, esse seja um dos milagres da vida cibernética. Espero que curtam a pequena homenagem a todos nós - e que fiquemos com vontade de organizar o famoso happy hour!

Era uma vez uma mulher com saudade de ser menina. Ela queria voltar a brincar e ter colegas de classe. Sentia muita saudade dos seus tempos de escola. Não pensem vocês, que a saudade era dos professores de quimica, física, matemática, não, nada disso. O vazio era do pertencer à turma, dos colegas, das risadas, das broncas recebidas pelos professores – ou seja, das pessoas e das peraltices.

Como queria brincar, começou a pensar com o que iria se divertir. A vantagem agora era o poder de escolha. Sorriu para si mesma, queria brincar com palavras. Procurou uma casa, onde o saber imperava, os livros estavam por todas as partes e as letras... ah! as letras, poderiam ser agrupadas, cuidadas, mexidas e remexidas a seu bel prazer.

Um sonho começava a tomar forma.

Timidamente, no mês das águas que rolam, chegou à sua nova escola. Local aconchegante, azul da cor do céu. Sentou-se. Não precisou de muito tempo para ter a certeza de que os próximos meses seriam maravilhosos. Estava mais do que feliz.

À sua frente, ela, a professora. Gostou do tom da voz, sem conseguir definir se era grave, rouco ou meio agudo. Para ela, era suave. Deliciosamente suave, principalmente quando lia os textos a serem estudados. Fascinação.

Ao seu lado, professores sendo alunos, jornalistas libertando seus escritos, enólogos apaixonados, viajantes incansáveis, adolescentes criativos, de tudo um pouco. Daqui e de lá. Miscelânea. Melhor seria dizer, Babel mas no melhor da sua compreensão. Como o vinho, o tempo contribuiu para o entrosamento e amadurecimento do grupo. As brincadeiras começaram.

As letras combinadas formavam palavras que a cada semana alimentavam cada um de nós pela beleza de textos que produziam. Algazarra pura!

Porém como todo vinho, que depois de aberto e degustado chega ao seu fim, o tempo de brincar findou-se. O sabor, as sensações evocadas, os momentos vivenciados – esses ficaram. Diamantes lapidados e eternos.

E a menina, que naquelas aulas tomou o lugar da mulher, brincou, riu e se emocionou como há muito tempo não acontecia. Feliz, voltou a pertencer. E, para sua surpresa, agora também sente falta da professora.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Jetéme

Ela gostava do som...
Não tinha a menor idéia do que significava.
Queria saber mesmo, é se ficava bom com farinha.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Qual será o fim da historia?

Vou te contar uma historia...

Em algum canto, escondido na alma, repousava o Sonho. Preguiçoso, com pinta de acomodado mesmo. Não estava nem aí pra nada.


 
Um dia, sem mais nem menos, a Preguiça foi embora pois tinha muito menos o que fazer em outras praças - essa aqui estava começando a se agitar. Como lobo em pele de cordeiro - pelo lado avesso da historia da carochinha - assim que a Preguiça saiu, a Vontade apareceu com uma baita força.

Uma sucessão de fazeres e aprenderes, inofensivos na aparência, tiveram inicio.
Faz daqui, aprende lá, procura noutro canto, busca, pesquisa, encontra, conhece, e por aí vai. Cada passo, novidade, descobrimento ou luz nova, apontava em uma só direção: o reencontro com o Sonho. Favas contadas, deu-se o encontro.


 
No primeiro momento, como todo ver de novo, alegria, satisfação, tentativa de recuperar o tempo não vivido, botar o papo em dia. Como depois do um, sempre vem o dois, a empolgação inicial foi dando espaço para um visitante intrometido. Era o Medo.

Do tipo folgado, entrou, aboletou-se em poltrona confortável e olhava a todos de cima a baixo. Iria comandar a partir dali. Essa historia de reencontro, era papo de gente besta na opinião dele. O que era antes, permaneceria igualzinho agora - este era o seu mote. Queria mesmo, era chamar o cordeiro de volta...

Olha, a historia é longa... mas prá encurtar, que o tempo é pouco e todo mundo quer usar com propriedade, a Vontade bateu o pé e disse que de lá não sairia. Havia reencontrado o Sonho e tinha certeza que era prá sempre. O Medo, até que titubeou um pouco, diante de tanta firmeza. Combinaram o seguinte: ele permaneceria por ali, fazendo o papel dele. Se essa certeza toda da Vontade e do Sonho fosse prá valer, ele sairia aos poucos - mas nunca completamente.

Amigo, sinto dizer que esse causo não encontrou seu fim. Ainda continua, mas hoje está assim: Sonho, Vontade e Medo convivem de maneira quase harmoniosa. Digo quase, pois desde quando o Medo cumpre com sua promessa e fica quieto no canto? Se não fosse a Determinação ter aparecido nas redondezas, essa história já teria terminado, provavelmente do mesmo jeito que começou.


 
Quando eu souber qual foi o desfecho, volto aqui e te conto.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Quando os olhos se encontraram com as mãos

Eram pequenas e inconstantes.

Mexiam-se de uma maneira estranha, nem tremendo, nem nervosas, existindo apenas. Frágeis e enrugadas, cobertas por uma estranha camada branca, escamando levemente e buscando não se sabe bem o que, exibiam a potencialidade da vida.

Nascia ali, a filha.

Na posição em que ela se encontrava e de um corpo que acabara de sair do seu, as mãos foram as únicas coisas que ela viu. Um lampejo de boca miúda, de carmim intenso também passou na frente de seus olhos. Mas foi breve, muito breve... somente as pequenas mãos permaneceram por perto, alguns instantes a mais. Melhor assim, pensou ela, antes sofrer de saudades somente das mãos, do que já sentir a dor de ainda não ter o todo. Como se, por si só tivessem vida própria, as pequeninas se foram e, pacientemente, ela esperou pelo reencontro.

De todos os sentidos, a visão e a audição, foram as grandes privilegiadas. Uma, pela beleza da dança protagonizada pelas pequeninas mãos diante dos olhos e a outra pela força do choro que anunciou a certeza da vida. Entre o primeiro e o segundo “estar junto”, passaram-se horas construídas com segundos que estavam amarrados a pesos de chumbo. Ela não conseguia dormir, só pensava nos movimentos incertos que presenciara e que seus olhos tiveram a sorte de usufruir.

Felizmente, o tempo cumpriu com sua sina e passou, trazendo o reencontro. De todos os pensamentos que teve durante esta longa espera, nenhum deles – nem remotamente – aproximou-se do que na verdade aconteceu. Eram aproximadamente seis horas da manhã, quando a enfermeira entrou no quarto com o presente dos deuses em seus braços. Os olhos queriam pregar uma peça, pois rapidamente embaçaram a visão. Desta vez, nada iria impedir que o encontro fosse perfeito, muito menos as lágrimas.

Delicadamente, a vida foi colocada em seu colo. No mesmo instante, as mãos foram reconhecidas, assim como o carmim da boca pequenina e seu formato de coração. Com carinho, recebeu auxilio para desabotoar o pijama. Amparando a cabeça da felicidade em vida e assim, apresentou à boca o seio.

Nascia ali, a mãe.



domingo, 19 de setembro de 2010

Um pouquinho todo dia

Parece conselho de vó... De repente, é mesmo Seja lá o que voce quer, basta um pouquinho todo dia. Se voce ama, faça um carinho, todo dia... Se voce deseja, feche os olhos e sonhe, um pouquinho todo dia... Se a balança parece ser do contra, caminhe um pouquinho todo dia... Se é da saúde que voce quer cuidar, coma uma maça todo dia... Se é dor que voce carrega, perdoe um pouquinho a cada dia...

Primos

De maneira geral, sempre rola uma piada relacionada a este grau de parentesco. Do tipo tosco, sem graça e vulgar. Porém existe, em muitos casos, a cumplicidade. De que tipo? Explico. Aquela que, quando voce volta de um lugar longe e chega no lugar de onde partiu, o primo serve de guia, de referencia. É aquele que te deu a mão e voce reconheceu. Te disse, "vem aqui" e voce foi pois confiava no caminho que era apresentado. As palavras, não eram muitas, mas a segurança era total. A idade, era pouca. O carinho, era imenso. E com isso, voce entendeu onde estava.

domingo, 5 de setembro de 2010

Nem pior, nem melhor.

Eram cinco. Estavam praticamente todas sobre a mesma pedra à beira da praia. Os comentários dos adultos ao redor, giravam em torno da natureza e como esta reivindicava seu espaço de direito. “Na minha época, a praia ia até aquela escada... está vendo, lá longe? Foi praticamente engolida pela maré.” “No verão passado, eu já tinha que tomar minha caipirinha no calçadão, não havia espaço na areia, um horror!” “Dotô, num tem mais espaço... deve di sê Deus brabo cum as coisa que nóis faiz. Vô ponhá sua cadeira aqui prá mó de servir u sinhô e a Dona Patricia no capricho!” Alheias a esses comentários e tantos outros, as cinco crianças brincavam com a sensação do medo. As ondas vinham... as crianças pulavam nas pedras, seu porto seguro e gritavam... gargalhavam... som estridente, reconhecidamente infantil e chato. Calem-se, vociferei baixinho. Que alegria irritante. No ir e vir das ondas, meus pensamentos acompanhavam este movimento. Iam mal humorados, voltavam emputecidos. Como pode? De onde vem tanta leveza? Deve ser a idade... Idade esta que não se preocupa com qual é o dia da semana. Muito menos com o horário, temperatura, período de eleição, futuro... O que importa é aqui, este momento, sobre as pedras e as ondas que se aproximam. “Vamos fugir prá elas não nos pegarem!” Grito estúpido, de uma infância que me incomoda. Será que elas não percebem que independente de seus gritos histéricos, as ondas não irão parar com este vai e vem? Elas não percebem que com o passar dos dias, irão envelhecer, desistirão de subir nas pedras para sentir segurança, mudarão seu tom de voz e gritos – nem pensar! Engolirão, cada um de seus sons e, acima de tudo, terão a consciência de que os movimentos das ondas manterá o seu ritmo, mudando apenas de acordo com a lua? Oh, doce ignorância... Meu ímpeto era contar a cada uma delas o que iria acontecer. Mostrar os sinais em meu rosto de como o tempo passa, que isto é incontrolável e que as ondas não importam mais. Que podem gritar o quanto quiserem, ninguém vai ouvir. Muito menos se importar. Dia da semana, mês e ano são apenas medidas entre o nascimento e a morte. Passam, um após o outro, numa sequencia tediosa, longa e desinteressante. Em algum lugar do passado, não me lembro onde, eu também subi em uma pedra. Acho que aquilo se chamava vida. Hoje, é apenas mais um dia da semana.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Só dói quando ri

Sempre sabemos como surgem, mesmo quando queremos esquecer. Visivel ou não, contam historias, trazem memorias. Uma delas, aconteceu de maneira muito bonitinha. Do alto do beliche, o menino resgatou as historias que ouviu, os quadrinhos que leu e o filme que assistiu. Resolveu voar. Preparou-se todo, não seria um voo como o do Super Homem. Seria um voo de Homem Aranha! Esticou os braços, apertou com o dedo indicador o próprio pulso para liberar a teia, mirou para o além e foi... para o chão! De cara, a seco, não sem antes bater o lábio superior naquele que, antes prédio, agora era apenas o outro beliche. Mas ele voou... entre a projeção do pulo e o corte na boca, ele esteve no ar. Rápido, rapidíssimo, milésimos de segundo... ele esteve no ar! A boca, até hoje mostra o feito. Dois pontos, nenhum dente perdido e a certeza de ter voado. Orgulho. Dessa cicatriz aparente, ainda hoje, quando ela já não tem mais o mesmo tamanho de antes, sente prazer em contar o que aconteceu. Ele cresceu, ela encolheu. E as invisíveis, o que fazer com elas? Do mesmo jeito que a cicatriz Homem Aranha, as invisíveis tem sua própria historia e nome. Difícil orgulhar-se delas ou contar com o tempo para que diminuam. Dormem, fingem-se mortas mas tem vida própria. Mascaradas nas tarefas do dia a dia, basta um sopro, uma letra, uma música, uma foto, um link ou qualquer outro despertador de memória para que, como uma fenix, ressurjam das cinzas. Neste momento, o menino homem, passa a mão sobre os lábios. Sente a rugosidade leve da marca de infancia e suspira. Quem dera, todas fossem como esta...

domingo, 22 de agosto de 2010

Homenagem a Dona Lygia, a Alfacinha

Foi um dia de dor. Muita. Depois de noventa e oito anos, um marido, tres filhos, seis netos e nove bisnetos; de ter enterrado o marido e o filho do meio, ela resolveu ir também. O corpo já não respondia à sua vivacidade. Os olhos, mantinham os azuis claríssimos, belo contraste para os cabelos brancos que sempre chamavam a atenção. Quantas foram as pessoas que ao verem o algodão que decorava aquela cabeça, cerimonia totalmente esquecida e guardada, acariciavam a cabeleira e exclamavam "que coisa mais linda!" Assim era... linda. Mas como tudo nessa vida, um dia se vai... ela foi. Carnaval, aniversário do filho enterrado, talvez quisesse relembrar os momentos passados com aquele seu menino folião - ao som de "Bandeira Branca", foi matar as suas saudades. Esta introdução é apenas para apresentar ao leitor, bem superficialmente, Lygia, minha avó. O que realmente quero deixar aqui, é a sua oração predileta, que no dia de sua partida, coube a mim ler, para todos os presentes. "Deus nosso pai, que sois todo poder e bondade, Dai a força àqueles que passam pela provação. Dai luz àquele que procura a verdade. Ponde no coração do homem a compaixão e a caridade. Deus... Dai ao viajador a estrela guia, Ao aflito, a consolação Ao doente, o repouso. Pai... Dai ao culpado, o arrependimento Ao espirito, a verdade À criança, o guia Ao órfão, o pai. Senhor... Que a Vossa bondade se estenda sobre tudo que criaste Piedade Senhor, para aqueles que não Vos conhecem, Esperança para aqueles que sofrem Que a Vossa bondade permita aos espíritos consoladores, Derramarem por toda a parte a Paz, a Esperança, e a Fé. Deus... Um raio, uma faisca do Vosso amor pode abrasar a Terra. Deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita e todas as lágrimas secarão, Todas as dores acalmarão, Um só coração, um só pensamento subirá até vós com um grito de reconhecimento e de amor. Como Moisés sobre a montanha, nós Vos esperamos com os braços abertos. Ó beleza! Ó perfeição! E queremos de alguma sorte merecer a Vossa misericórdia. Deus... Dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até Vós. Dai-nos caridade pura. Dai-nos fé e a razão. Dai-nos a simplicidade que fará das nossas almas o espelho onde se refletirá a Vossa imagem. Caritas."

domingo, 1 de agosto de 2010

O presente

Nem real era. Pedra, papel, metal precioso ou tecido - nenhum destes materiais se aplicavam a ele. Nem líquido, nem gasoso. Muito menos sólido. Reais, dólares ou euros foram desnecessários. Fato impensável em uma época como a de hoje onde "vale quanto custa" parece ser a regra. Custo zero. O material utilizado foi a criatividade, aliada à emoção e a um rico acervo. Chegou aos poucos, em etapas, atraves de um email. Texto explicativo, ligeiramente jocoso, mas já antecipava possiveis consequencias. Uma lágrima aqui e outra ali poderiam aparecer. Na mensagem, um link - o caminho virtual dos tempos de hoje - que nos levam a passeios impressionantes. Por este caminho, imagens de ontem e de hoje foram sendo descortinadas. Uma a uma. Clique após clique. E lá estava ela, a Vida. Nascimentos, comemorações, férias, situações cotidianas e até a morte estavam lá representados. Alguns se foram, levados por Deus, outros se foram por um link diferente. Duzentos e oitenta cliques. Vinte anos de historia. Uma familia. Uma vida. Várias lágrimas.
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