quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Lugar para um

Quarta-feira, oito e vinte e quatro da noite no relogio de parede do restaurante. Transito caótico e chuva torrencial.
São Paulo.
Ele entra no restaurante sofisticado de shopping center, é recebido pelo maitre que pergunta quantos lugares e ele responde: lugar para um.
De estatura mediana, careca estilo Sean Connery, óculos de aro fino como o personagem de Monteiro Lobato, Dr. Caramujo, traja camisa social de mangas curtas, listrada azul-e-branco, calças pretas. Poderia ser um contador. Bem sucedido. Talvez.
Sobre a mesa, além de talheres, copos e pratos, um Iphone, água com gás, whisky com muito gelo e uma sacola plástica da Droga Raia.
Recostado em seu lugar único, pernas estendidas e cruzadas sob a mesa, toma um gole de seu whisky, discretamente olha ao seu redor, outro gole de whisky. Inércia. Estático por uns momentos. Parece morto, mas não. Dorme. Cochila. Desconecta-se.
Passados dez minutos, não mais do que isso, abre novamente os olhos, espreguiça-se de maneira imperceptivel, olha ao seu redor, toma um gole de água e senta-se de maneira ereta, checa seus emails pelo Iphone, toma outro gole de whisky. Aguarda.
O garçom se aproxima, pede licença e serve o jantar.
Em instantes, ele termina o que foi servido, pede a conta, sem café, paga e vai embora.
Nove horas e doze minutos entra no táxi e parte.


Pai, feliz aniversário!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Qual é o momento certo?

Vamos bater um papo?
Se voce me segue, deve ter reparado no silencio que este blog ficou nos últimos tempos.
Trabalho, final de ano, filhos, cachorro, marido e preguiça, invadiram meu abecedário, levaram todas as letras e fiquei incapacitada de reuni-las novamente. Esta não é bem a palavra, mas vai ficar aqui. Estou retomando!
Dificuldade de juntar tudo... sem as letras então, que foram levadas por não sei quem ou o quê, mais complicado ainda!
O tempo foi passando, o silêncio aumentando, as letras ficando cada vez mais escondidas, quase impossível de reave-las. A vontade, o desejo de escrever, dizer coisas bacanas, juntar as letras, juntar tudo e postar, me expressar e exercitar esta arte que estou aprendendo, existia. Mas aguardava "o momento".
Sentei varias vezes em frente ao computador, fiz rascunhos, guardei uns, deletei outros. Os caderninhos de anotação estão relativamente cheio de idéias, mesmo assim, a dificuldade de usa-las e transforma-las em texto permanecia.
As letras N - A - D - A, pareciam ser as únicas do vocabulário que se encontravam com frequencia.
O tal do "momento certo", realmente existe?
Acho que não. Pelo menos, prá mim, não foi isso o que aconteceu.
Vários momentos passaram onde:

Não exercitei a escrita.
Deixei de treinar combinações, ordem de palavras, desordem de pensamentos.
Não me aprimorei nem li seus comentários, criticas e sugestões.
Passei, literalmente, em branco.

Que, de todos os momentos em branco que eu venha a ter, este tenha sido o mais longo de todos!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um conto qualquer

Fulana era uma boa pessoa.
Boa mãe, daquelas que corre na hora do almoço para buscar os filhos na escola (e de quebra, bater um papo com a professora).
Boa esposa acompanhava o marido a jantares com os amigos, colegas de trabalho, estava sempre com a depilação em dia, manicure perfeita, cabelos arrumados e perfumada. Até na cama, dava para o gasto.
Boa profissional, cumpridora de prazos, tinha idéias criativas, fazia planilhas excelentes e estava no mesmo emprego há alguns anos.
Tinha poucas amizades, considerava que a maioria das pessoas que conhecia eram apenas colegas. Amiga mesmo, somente Sicrana que conhecia desde a época do colégio. Com ela, conversava sobre tudo. Fulana foi madrinha de casamento da amiga, já Sicrana, era madrinha de um dos filhos de Fulana.
No prédio, a vizinhança não tinha do que reclamar – mesmo quando os filhos de Fulana se excediam na gritaria e brincadeiras na piscina. Estes sim eram considerados pela vizinhança mimados e mal educados.
É... no geral, Fulana era uma boa pessoa. No geral.

Quem discordava disto, era Elicleide.
Fruto de uma pulada de cerca de seu pai, Eli, que não conseguiu resistir aos encantos de sua mãe, Cleide. Completamente apaixonada e sem a menor condição de ter o pai de sua filha ao seu lado, Cleide resolveu unir os dois para sempre de qualquer maneira. Assim, decidiu o nome da filha: Elicleide. Desta maneira pelo menos, perpetuava a união que jamais aconteceria de fato.

Elicleide trabalhava na casa de Fulana (“Dona Fulana, Elicleide! Olha a intimidade!”) há dois anos, desde que sua prima Jacira voltou para Sergipe.
Quem precisa, faz cara de quem gosta – é o que sua mãe respondeu, quando Elicleide perguntou se deveria aceitar ou não o emprego. Jacira já havia contado algumas situações vivenciadas com Dona Fulana, nada agradáveis. Elicleide resolveu fazer cara de quem gostava e aceitou o emprego.

Como sempre, o serviço era completo. Limpar, cozinhar, cuidar das roupas e das crianças. Entrar cedo e sair quando fosse liberada – ser mensalista tem suas vantagens e desvantagens também, mas pelo menos, não precisava dormir no emprego.
 Quase sempre chega no horário, gosta de ser pontual, mas  quando chove ou motoristas e cobradores fazem greve, se atrasa um pouco. E isso é motivo suficiente para começar o falatório de Dona Fulana.

- O que é isso, Elicleide? Eu pago prá voce estar aqui às sete horas, são quase oito! Onde já se viu? É por isso que esse país não vai prá frente, essa gente não quer trabalhar, não se organiza, bota a culpa em tudo, mas responsabilidade que é bom, nem pensar... nem pensar!

Elicleide preferia se atrasar e ouvir tudo o que Dona Fulana tivesse para dizer, a fazer qualquer outra coisa errada. Atraso, não era descontado de seu salário, já o resto...
Lavar louça era um tormento. Tremia só de ver a pilha de louça. A taça de vinho que escorregou e quase cortou sua mão, foi descontada do salário. Nunca imaginou que um pedaço de vidro de cabo comprido, fosse tão caro. Trinta e cinco reais! Onde já se viu um absurdo desses? E com tanto copo de requeijão sendo jogado fora, é um desperdício. Pelo menos, Dona Fulana permitiu que o valor fosse parcelado.

Ao longo dos dois últimos anos, morria de medo de quase tudo: de lavar, passar, de fazer o seu serviço. Nem se importava com a falta de reconhecimento, mas os descontos no salário doíam demais. Ela não fazia de propósito, seguia todas as recomendações de Dona Fulana, mas às vezes não entendia bem o que era para fazer. E algumas vezes, o que fazia dava errado, como na última vez que pediram para que limpasse a mancha no sofá branco, e ela usou água sanitária. Diacho, como iria adivinhar que couro não pode ser limpo com cândida? Esse conserto ela ainda estava pagando. E tudo o que ouviu, ainda ecoava em sua cabeça. Pensou em desistir, conversou com a mãe em casa, chorou. E ouviu a frase de sempre: “Minha filha, quem precisa faz cara de quem gosta.” Resignou-se.

Sendo essa a vida, era essa vida que levava religiosamente, de segunda a sábado, só tendo folga aos domingos.
Além do trabalho, outro compromisso que Elicleide cumpria religiosamente, era ir até a lotérica, duas vezes por semana e fazer o seu jogo na Mega Sena.
Marcava sempre os mesmos números: 04 – 12 – 27 – 33 – 41 – 58, e antes de entregar o bilhete e efetuar o pagamento, rezava a mesma oração, baixinho: “Meu sinhô, meu sinhozinho / Luz de amor e de justiça / leve aqui o meu joguinho / e abençoa, por favor / essa sua devota / e os números que ela aposta”. E seguia para sua casa. Às quartas e sábados, ficava atenta a espera do resultado. Após o resultado, sempre pensava: “Na próxima, meu sinhozinho. Tenho fé, pois água mole em pedra dura, sempre bate até que fura. Amanhã, jogo outra vez!”

Se por um lado, a fé permanecia forte e inabalada, por outro, Elicleide não se deu conta de outro sentimento que crescia dentro de si. Como a vida era desse jeito mesmo, não tinha tempo para pensar nessas coisas. Seguia em frente. E despretensiosa,  quase sabendo que o tempo era seu maior amigo crescia a passos lentos, a raiva. 


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Moral. Moral?


Era uma bela peça de arte. Realmente, a primeira colocação foi merecida.

Na parte inferior do canto direito, era meu o nome que assinava a tela.
As cores, os traços e até mesmo a idéia, partiram de Marineide.
Mas as letras e a caligrafia que identificavam a autoria eram claras: DÉIA MENDONÇA. Com acento no E.

Incapaz de pintar e tendo que participar do concurso (nem me lembro o porque), lembrei da máxima proferida na aula de Literatura, quando o assunto era Machado de Assis, pela digníssima professora:

- Não tenham vergonha de pedir ajuda. 

Foi o que fiz, assim que me dei conta do desafio que se apresentava. Pintar um quadro para o tal concurso. (Quem foi que me inscreveu mesmo?)

Pedi.

Marineide aceitou.

O premio em dinheiro, é meu.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Bombas


Uma é doce... a outra, amarga
Envolta em papel delicado, traz prazer a cada bocado.
A outra, se aproxima aos poucos e desfecha golpe certeiro e mortal
Uma, me apraz... a outra, me desfaz.
Alguns segundos na boca, tortuosos minutos no ouvido
Uma eu devoro, a outra me consome.
Fruto de um desejo...
Fruto da desatenção...
Ambas tem seu tempo findo
Uma, meses na cintura...
A outra, anos no coração.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amor barato



Pisava duro, determinada e cheia de raiva, do alto de suas sandálias prateadas, companheiras de guerra e de pagode. Basta!, pensou Marli. 
A caminho do bar, os últimos nove anos passaram - dia a dia - pela sua cabeça. Promessas, juras de amor, bichos de pelúcia, sexo suado com cheiro de cerveja, todos os momentos vividos com Negão foram novamente sentidos a caminho da desforra final.
Ela nem era do tipo que gostava de escândalos, tinha aprendido a ficar quieta e se controlar. Isto era fundamental quando se divide o homem com outra mulher. Mas tudo tem limite e, desta vez, ele ultrapassou. E muito.
Marli estava com Dr. Pedrosa, dentista do bairro, terminando de consertar uma ponte que havia caído da maneira mais estúpida que se poderia pensar. Na noite anterior, um dos clientes estúpidos, em um movimento estúpido, bem na hora do meia-nove, acerta uma joelhada na boca de Marli. Além do nocaute sofrido, uma ponte dentária perdida.
A recepção do consultório do Dr. Pedrosa, parece um salão de beleza, tão grande é a algazarra e falação de quem está esperando para ser atendido. Uma muvuca.
Foi ali, de boca aberta, cheia de parafernálias enfiadas na boca, que ela ouviu a história que mudaria tudo.
Reconheceu as vozes de Edileide e Márcia, conversando na recepção. O assunto era Negão e a imbecil da mulher dele, Nicéia.
Na verdade, mulher era força de expressão, pois eles não eram casados. Moravam juntos há catorze anos, mesma idade do descuido dos dois, Benedito.
Desde então, pelo "bem do menino", moram na mesma casa.
No bar do Joca - o local onde tudo é celebrado no bairro, de nascimento a enterro, de casamento a separação - semana sim, semana não, um dos dois aparece com olho roxo, arranhões pelo corpo, cabelos desgrenhados e cheirando a pinga. Outra briga. Para quem quiser ouvir, o discurso é sempre o mesmo - ou vai matar, ou vai morrer, que esta foi a última vez, isso nunca mais vai acontecer, que não se pode viver assim, blá blá blá.
Foi em um desses dias que Marli se apaixonou por Negão. Aquele homem, machucado por dentro e por fora, urrando feito animal as suas dores, mexeu com ela. Sem conseguir controlar seus impulsos, levantou-se, foi ao banheiro, molhou um chumaço de papel higienico e, na volta, foi limpar as feridas que Negão apresentava.
A partir deste momento, o resto é história...
Márcia, voz alta, parecendo uma gralha contava, a quem quisesse ouvir na recepção do consultório, que Negão e Nicéia estavam ficando noivos, no bar do Joca, com tudo o que tinham direito. Inclusive, anel de noivado.
Edileide, soltava exclamações a torto e à direito, como se realmente estivesse feliz ou se importando com os dois. O que ela queria mesmo, era sair logo do dentista e ir para o regabofe.
Marli, quase engoliu  o espelhinho que Dr. Pedrosa tinha em mãos.
Filho da puta!, gritou ao mesmo tempo que chutava a mesa de apoio do dentista, fazendo com que espéculos, pinças, bisturis e um sem nome de instrumentos voassem pelos ares. Isso não ia ficar assim.
Dr. Pedrosa, bem que tentou, mas foi inútil tentar domar a fera que neste momento nascia incontrolável. Marli saiu enfurecida.
Chegando ao bar, qualquer lembrança carinhosa que tivesse, sumiu.
A cena, por si só, era mais do que suficiente e, neste momento, lembrou-se da frase sempre repetida pela sua avó, que desgraça pouca é bobagem e sempre vem acompanhada.
Lá estava Nicéia... bebendo... sorrindo... rebolando e... com um anel no dedo direito. Era verdade, o fato estava sendo consumado.
Não bastasse a vergonha dos anos escondida, engolindo, amando em segredo mas sempre acreditando, agora havia um troféu escancarado em sua cara mostrando a sua derrota. E não era um troféu qualquer. Era um troféu de noivado.
Lá estava ele, um anel de um rosa tão intenso, como ela nunca vira na vida. Em meio àquele sacolejo todo, ele se destacava, como coisa de madame rica, chique, rosa, intenso. Era demais para ela. Ficou cega de ódio.
A partir daquele momento, Marli não se lembra mais com clareza o que aconteceu - mas a vizinhança se lembra dos detalhes até hoje.
Marli, voou para cima de Nicéia com uma fúria só vista nas lutas de vale tudo - não havia quem conseguisse desgrudar as unhas de uma cravadas no pescoço da outra.
Mesas, cadeiras, garrafas quebradas, "deixa disso" prá cá e prá lá, choro de criança, tudo misturado ao mesmo tempo, ninguém mais conseguia identificar quem batia e quem apanhava. Sobrou geral.
De repente, no meio da fuzarca toda, um grito lancinante, longo, doído se fez ouvir por todo o bar. Todos pararam. Meu anel sumiu!, gritou Niceia, ao mesmo tempo que caía de quatro no chão procurando desesperada pelo seu troféu.
Marli, escorraçada, é posta na rua, longe do bar, enxotada como um cão.
A sandália prata, sem um dos saltos...
A ponte, recém constituída, caiu de novo...
No rosto, os arranhões ensanguentados...
No corpo, hematomas por toda a parte...
No canto da boca, um sorriso...
O anel, agora era seu.

Niceia que ficasse com Negão.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quem não tem cão, fica assim mesmo


Ivone, tudo bem?
Puxa, amiga... já faz um tempo que não mando notícias - estou com saudades!
Mesmo nesta era tecnológica, ainda gosto de uma cartinha... portanto, resolvi escrever.
Ontem, fui ao cinema com a Manoela... cinema sem voce é jogo duro... Bom, assistimos ao "Comer, Rezar, Amar", voce já viu? Aquele com a Julia Roberts e o gostoso do Barden... aff, amiga, me abanaaaa!!! Tirando esse "calorão", ainda não sei se gostei, amei ou detestei o filme! Pode? Acho que fiquei foi com raiva... foi uma ""bad trip" interna...
Fim do filme, falei prá Má: estou lascada!!! Fazer um roteiro MA-RA-VI-LHO-SO daqueles, prá se encontrar... quem pode? Só a Julia... que faz e ainda ganha uma for-tu-na prá isso. É, a autora do livro também... Confesso que fiquei com dor de cotovelo.
Nesta altura do campeonato e a maré do jeito que está, parei prá pensar. Comecei a fazer contas, começando por quanto eu já gastei na terapia com a Bete. Nem terminei, Ivone... nem terminei. Quando cheguei aos sete anos de terapia re-li-gi-o-sa-men-te frequentados, parei. Fui sentindo uma falta de ar, uma tontura. A Má ficou preocupada, me deu uns chacoalhos e falou prá eu acordar. OK, acordei... mas meu bolso, acho que não se recupera dessas contas. Já era para eu ter me encontrado há ANOS!! Anos!!
Como eu já estava na onda do filme, voltei prá casa, deixei esses numeros horrendos de lado e resolvi levantar meu astral. Fui olhar minhas fotos, ver algumas das viagens que fizemos juntas - isso tem valor, né? TEM QUE TER... 
Tinha uma foto bacana, em Caraíva, em frente da "mezzo cantina, mezzo casa" dos italianos que resolveram viver lá... Não era a Itália, mas o lugar era super lindo e a pasta... decente. Recordando esses momentos memoráveis, tive a certeza: não foi lá que me encontrei.
Fomos para Aparecida, lembra? A Basílica é linda, fizemos promessa, acendemos vela (como era cara!), assistimos missa, compramos santinho, fitinha, tudo! E do Jorge... não me livrei. Devo ter acendido vela para o santo errado. Voce e a Manoela, não podem reclamar. O que não fazia parte, na época, era a Má se apaixonar pela Renata... De qualquer maneira, querida, eu bem que poderia ter alimentado a alma, o espírito e todo o resto... mas não aconteceu.
Será que o problema é o tempo de duração da viagem? A Má acha que sim, ela disse que dá certo se a viagem for por um ano. Com tanto tempo assim, se a pessoa não se achar, tá perdida mesmo - aí, não tem jeito! E indo de um lado para o outro, quem vai conseguir te encontrar???
Mas um ano fora, amiga... como pode? O que faço com a luz, água, telefone, minha mãe, meu cachorro, o apê, emprego... ai!!! Socorro!!!
Ivone, a coisa tá séria para o meu lado... Se até aqui, "comer e rezar" foi uma lástima, o que dizer do "amar"!? O traste do Jorge, não ata nem desata - mas eu tenho fé, ô se tenho... Ele vai largar aquela mocréia antes do final deste ano (e não adianta, voce suspirar e pensar "de novo"... dessa vez vai acontecer, tô sentindo...) Ele está diferente, mais comprometido... Vai ver que é o meu santo lá de Aparecida, com um certo atraso de anos, trabalhando a meu favor...
Querida, vou parar por aqui... meu pulso tá doendo (de quem foi a idéia de escrever cartinha?) Além disso, enquanto não consigo fazer um circuito Julia Roberts, visitando Italia, India e Indonésia, nem um circuito Elisabeth Arden, trabalhando em Roma, Paris ou Nova Iorque, vou garantir o aluguel no famoso circuito Jeca Tatú (Barueri, Carapicuiba e Itapevi) que a vida de vendedora é isso mesmo... uma "aventura" atrás da outra!

Um grande beijo, saudades
Solange




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sentimentos e percepções

Caminho de outono
As folhas caem...
A renovação se inicia.

Fim de verão,
As chuvas cessam
As aulas, começam...

Cai a chuva,
Molha o chão,
Alimenta o céu.

Rompe a luz da manhã
Com pássaros que voam
E a cantoria se instala

O galo canta
Ele acorda...
Café na cama.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Conversa alheia

- Pedrinho, voce quer pipoca?
- Não, vó...
- Quer água, querido?
- Não, vó...
- Mas voce acabou de falar que está com fome...
- Tô sim, vó...
- Então, porque está dizendo não prá tudo?
- É que voce perguntou se eu queria uma coisa, vó. Eu quis o brinquedo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Minha saudade

Da gemada feita pelo meu pai para o café da manhã. Do passeio até a sorveteria Alasca, que meu padrinho proporcionava para mim, minha irmã e minha madrinha. Tomava sorvete até congelar. Fiquei com saudade deste frio. De subir na goiabeira de casa, cheia de medo dos bichinhos que moravam na árvore. A casa era deles e eu, a invasora. Da Catita, minha doce dálmata que um dia se foi sem eu entender a razão. Ficou a saudade. De cortar a cana, prá tentar assobiar e chupar ao mesmo tempo. Nunca consegui, mas valeu ter tentado. Saudades do casal de pinheiros plantados em frente à casa. Casal sim, pois um representava minha mãe e o outro meu pai. Saudades das quatro mãos, que marcavam o chão cimentado,  na entrada da oficina de "faz-tudo" do meu pai. Minha, da minha mãe, do meu pai e da minha irmã.
Oficina essa que, quando entrava um abajur, saía liquidificador que iluminava. Quando entrava ferro de passar, saía torradeira. E assim, o inventor inventava...
Saudade da minha vó, que sempre dizia: "Menina, que mania é essa de tudo ser seu? Minha mãe, meu pai, minha vó..."

Vó, hoje pode ser tudo meu?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sexta feira

Sexta feira, fim do expediente, salão vazio. Dia puxado.
- Shiiiiiirley! Prepara o lavatório, menina! Vou prá terceirinha e última de hoje... Olha o capricho, hein nega. Na lavagem do almoço voce usou muito condicionador, filha. Desse jeito, fica bom não ta? Quero meus cabelos “super mara”, tá?
Resignada, Shirley se prepara para o ritual diário, imaginando como Paulinho se vira sem ela em casa. Será que pede prá mãe? Não, isso não... Ridículo imaginar que, uma bicha quarentona como ele, pede prá mãe lavar seus cabelos tres vezes por dia. Obsessão tem limite!
- Nossa, que dia, hein Shirley? Dona Laura saiu uma rainha... Um luxo! Só eu mesma prá dar jeito naquela cara hor-ro-ro-sa. –
Paulinho coloca a toalha em volta dos ombros, prepara-se para recostar a cabeça, mas antes...
– Shirley, ô Shiiiiiirley! Pega a última “Caras”, fazendo o favor. Tá fresquinha, acabou de chegar, to louca prá ver. É a que tem na capa Lu Gimenez e uns tres camelos. Um dos camelos é o marido dela, que deve carregar muita sacola de compra, isso sim... háháhá!! Trouxa. Repara a cara dele... tá rindo do que, criatura?
Bambi azedo, ela pensa. Não consegue ver alguém feliz que logo tem um comentário. Gente assim não tem espelho em casa, não se olha, pior... nem se enxerga. Xiii, começou a fungar... mal sinal... lá vem...
- Shiiiiiirley! Pega lá minha bolsinha de remédios. Tá na gaveta de achados e perdidos. Procura direito criatura, do lado do caixa. Ai, menina, como voce é atrapalhada! Não consegue encontrar nada mesmo – funga novamente – Essa rinite hoje tá que tá... Tomei meus remédios e nada, ainda me sinto malzinha... Será que é gripe? Não pode ser, já tomei vacina de gripe... créédo! E se for aquela gripe dos porcos? – faz o sinal da cruz – Essa eu ainda não tomei. Pode? Esse governo, criar regra e dizer quem pode ou não pode ser vacinado de graça? Nem te ligo, amanhã mesmo vou agendar a vacina numa clínica. Pago do meu. Mas acho bom também dar uma passadinha no Dr. Afonso, prá dar uma geral, tenho sentido umas dores... já faz um mês que não vou lá, passou da hora!
Com cinco gatos em casa e a mãe passando dos oitenta, impossível não ter rinite, alergia, coceiras, diz Shirley a si mesma observando o inicio de mais um ritual de Paulinho. Ri sozinha. Quantas vezes ele já leu e releu a bula desse remédio? É sempre a mesma coisa.
 - Olha isso, que tristeza, filha... O Roberto tá bem abatido aqui. Enterrar a mãe, não deve ser fácil - novo sinal da cruz – Deus me proteja! Antes disso acontecer comigo, a minha santa vai ter o seu salão... Ah, se vai! Escreve aí, Shirley – daqui há dois anos, monto o salão da minha Dona Clarinha. Só não vai ser em Santos, que prá lá não volto nem MOOOR-TA! Vai ser por aqui mesmo, perto da Praça Roosevelt. A-dooooo-ro o centrão.
Distraida, pensando como uma senhora de oitenta e dois anos cuidaria de um salão, Shirley repara no relógio da parede que marca 20,45h... hora de ligar para Dona Clarinha.
- Mãe, tudo bem com a senhora? Tô terminando, minha linda... Uns vinte minutos... Acho que dá sim... Ô mãe, só a senhora mesmo... brigado, viu? Beijo mãe, até daqui há pouco. Shirley, anda logo com isso filha, que ela já tá preparando a pipoca. Ô coisa boa... tem nada melhor que comer pipoca na panela, quentinha, feita com todo carinho pela minha santa mãezinha. Anda, menina, tá pensando no que?
Pensando em nada. Mecanicamente ela termina seu serviço agradecendo o fato de que depois de amanhã é domingo. Prá ela, bom mesmo é assistir o Silvio na tevê, comendo brigadeiro de colher.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Tuitando e brincando

A brincadeira do tweeter, me pegou!
Gostei da rapidez, do conteudo sintético (às vezes patético, é verdade) e, prá variar, do bate papo.
Por conta disso, resolvi brincar com as sílabas de @decicote.
O que dele sei, é que gosta de metáforas - não consegui usá-las aqui, fico em débito. Espero ter conseguido, no mínimo, criar um texto interessante. Assim como decicote é. Aqui vai:
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Decido contemplar textos.
Conecto-me à tela, desejando teu cívico perfil.
Teclo, concordo, debocho neste cibernético espaço.
Desligo, cinzenta, confusa e temerosa - não decifro o código de teu ciclo.
Teimoso, comenta a ciranda desrespeitosa e... pt, saudações.
Comedidos, circulam destemidos teus textos.
Desvenda a ciencia e contextualiza o tempo.
Decicote.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O ser humano, seu desenvolvimento e sua relação com o Zodíaco

Erra grandemente aquele que confunde o espírito ou a inteligencia com a Alma.
Não menos erram aqueles que confundem a ALMA com o CORPO.
Da união do espírito com a ALMA, nasce a razão.
Da união da ALMA com o corpo, nasce a paixão.
Desses tres elementos,
a Terra deu o corpo
a Lua deu a alma e,
O Sol deu o espírito,
Através dos quais o homem justo consciente de todas essas coisas, é, a uma só vez,
Nesta vida física um habitante da Terra, da Lua e do Sol.

Plutarco, 120 aC
-- 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Caminhar

Trago em minha história
Nem sempre boa memória...
Dores, tristeza e temores
Nada que curem, os melhores doutores.
Rancor, amargura e solidão
Endurecem o meu coração.


Trago em mim a história
Que delineia minha trajetória...
Pedras, chuvas e vales
Fizeram parte de todos os males.


Em mim, trago uma história
Que pode ser notória,
Ter glória e contar vitória.


Pois em mim, trago também
O poder de olhar além,
De reconhecer que sou alguém
Que pode fazer o bem


E que consegue, acolher também
A sua própria memória.

(a todos os meus colegas do Grupo XII - Preparatório Formação Biográfica)

domingo, 24 de outubro de 2010

As voltas da vida

Avisada que essas coisas, mexe-vira, remexe-volta, acontecem - isso foi.
Crer, prá que?
Tocou a vida, virou-voltou, remexeu-mexeu e deu no que deu - a vida voltou e ela agradeceu - a quem jamais imaginou um dia agradecer.

domingo, 17 de outubro de 2010

Perfume de Guimarães

O coroa destro jogou a roupa sobre o abajur sem se dar conta do perigo que corria com seu gesto.
A fina lâmpada quente, após horas a fio iluminando o pequeno cômodo, não precisava de muito estímulo para partir-se em vários pedaços e, se o infortúnio estivesse espreitando o ambiente, com seu calor inflamar a pinga derramada sobre a mesa.
Se tivesse, por alguns instantes, pensado em seu ato, agiria de forma a concretizar a possibilidade. Para ele, perigo era a sensação de peso que ora possuía, dos anos acumulados, da coroa dentária mal feita, da roupa surrada que o envergonhava e o hediondo abajur, acusador, mostrando o exato tempo que havia passado... era um destro acabado.
As estúpidas topadas que seus incansáveis tortos pés deram ao longo da vida, só criaram calos e dores que hoje o imobilizam.
Em sua cabeça, apenas as palavras soltas e desconexas, acompanhadas dos objetos inexpressivos, lhe davam direção: roupa, coroa, perigo, abajur... e aquela que mais rancor lhe causava, destro!
A vida inteira lhe pareceu acontecer à esquerda...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Oração

(sinal da cruz) Em nome do Shakespeare, do Neruda e do Chico Xavier...
Meu querido São Papaqueô, venho humildemente diante de suas páginas implorar sua compaixão. Estou sem criatividade, não consigo escrever uma linha sequer... deve ser praga do Sarney, pois assinei a lista a favor da saída dele da Academia Brasileira de Letras.
Não, meu santo... de maneira alguma assinei a lista para abrir uma oportunidade prá mim... quem sou eu!? Meu santo, eu te peço... ilumine minha mente com palavras belas, que quando se juntam com outras compõe um bom texto. Peço um bom texto, pois sou humilde, meu santo... não quero abusar de sua benevolencia. Mas aceitaria de bom grado uma inspiração tipo... Maria Claudia. Não quero que me tome por invejosa, meu santo... Deus me livre e guarde! Mas acho que o senhor tá sempre zelando por aquela boa alma... Ai, meu São Papaqueô, tende piedade de mim... Ontem mesmo passei diante de uma livraria e fui direto até a sessão de dicionários prá ver se acontecia algum milagre da tradução... É meu santo... da tradução, pois eu me enganei e estava diante de literatura estrangeira e como eu não queria perder a viagem, orei ali mesmo... Eu tinha que voltar pro trabalho, o senhor sabe como é isso. Ai, meu santo, que besteira... sabe nada, desde quando santo trabalha com horário! Ó meu senhor... feliz é a Marilei que prá onde olha sai texto... se não sai texto, sai foto... é a própria editora em forma de mulher... pobre de mim, meu santo... por isso estou aqui diante de ti... suplicando que derrames sobre mim tuas bençãos. Estendo, diante de ti minhas mãos, meu caderninho de anotações, o lápis e meu laptop...
Senhor, só peço que tenha piedade de mim e do meu saldo bancário e que essa criatividade toda não dependa de viagens internacionais pela Italia, India, Indonesia - ou qualquer outro local tão paradisíaco e perfeito para cenários cinematográficos - pois meu caixa tá baixo no momento...  Creio que um passeio por Cabreuva, Itu e Sorocaba já ajude neste quesito... 
(sinal da cruz) Em nome do Shakespeare, do Neruda e do Chico Xavier... amém.


sábado, 9 de outubro de 2010

Companhia

Apenas um lembrete, que esquecemos com muita frequencia: fazer companhia a si mesmo é o melhor remédio.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Observando

Conversa em um SPA.
Uma delas, com o livro "Magra e Poderosa" em mãos e jogando exclamações para todos os lados. "Nossa que porrada!" "Aqui tá me chamando de vaca e imbecil o tempo todo!"
A todos que passam, também acima do peso, recomenda: voce precisa comprar este livro! Só diz verdades!
Conclui: o leite de vaca é o mal de todos os males. Decide trocar pelo leite de soja.
Será que encontrou a solução definitiva?
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