domingo, 5 de junho de 2011

Tempos modernos

- Bê, tudo bem? Pode falar?
- Posso sim, Lê. Tudo tranqüilo e com voce?
- Ai, amiga... tá tudo bem sim, mas, sabe como é, tá chegando aquele dia...
- Nem me fale... entra ano sai ano, a mesma coisa. Quando vai acabar esse martírio prá gente, hein?
- Sei lá... um inferno isso. Voce tá com a listinha? Começou os trabalhos?
- Claro, Lê, com essas coisas não se brinca! Prá garantir, comecei em maio, uma a cada dia, depois vou repetindo as simpatias na mesma seqüência. Comprei várias imagens de Santo Antonio, guardei uma na minha carteira e todo dia dou uma palavrinha com ele, bem carinhosa e simpática. Tenho outra imagem no freezer, uma de cabeça prá baixo no copo d’agua, mais outra no copo d’agua com quartzo rosa. Essa pede para fazer o ritual por três dias seguidos e depois tomar banho com casca de maçã e mel. Sabe que desde que comecei com essa simpatia a minha pele melhorou muito?
- Sério? Depois me passa a receita do banho... Sabe, chego a ficar com saudades do idiota do Beto. Me arrependo um pouco de não ter sido mais compreensiva. Acho que peguei pesado. Tudo bem, ele tinha algumas manias, mas quem não tem?  Começou com as coleções de figurinhas, depois coleção de lata de cerveja, aí passou a só freqüentar restaurante que começasse com a letra P, depois foi prá letra A... cada mês uma novidade. Até que chegou o período em que ele meteu na cabeça que tínhamos que fazer todas as posições do Kama Sutra. Isso foi demais! Tudo bem, até tenho fantasias, sou curiosa, mas na hora H ter que fazer pinheiro, balanço, arco-íris, carrinho de mão, sonolenta... haja ioga! Algumas posições acabaram comigo, outras... ai... ai... Me dá até um calor... sinto saudades do nó da cobra e do parafuso... Deve ter ido tudo por água abaixo quando a ponte caiu... Lembra, amiga? Explicar no hospital como ele tinha quebrado o braço foi o maior mico... esmigalhou o cotovelo... Coitado.
- Pode parar de suspirar e ficar saudosista, fofa. Lembre-se que potencia não é nada sem controle... Agradeça a distância que tem entre vocês dois hoje. Querer transar de tudo quanto é jeito, tudo bem, é difícil reclamar disso – ainda mais em período de entressafra como a nossa – mas quando ele entrou numas de falar de banda de rock traduzindo os nomes, isso era ridículo! Naquela época, ninguém entendia o que ele falava. Ninguém! “Cobrabranca”, onde já se viu isso? Parece nome de terreiro de macumba! O pai de santo por um acaso era o Coverdale? E quando ele falou que adorava “Roxo Profundo” e voce acreditou que ele iria entrar na onda do sadomasoquismo? 
- E a confusão com meu pai, lembra? Meu pai procurando emprego, tadinho... enviando currículo para tudo quanto é lado e o Beto fala do “supervagabundo” e meu pai achou que era com ele? Nossa, que confusão foi aquela... Ali, explicar que focinho de porco não era tomada, foi difícil...
- Nooooossa, e o tapa que eu dei nele por causa do “Voce também”? Eu não entendia nada... Ele dizia: “Adoro voce também” e eu: “Ãhn? Como assim? Tá louco, voce é namorado da minha melhor amiga, não tem vergonha nessa cara?” E ele: ”Calma, não é o que voce tá pensando... estou querendo dizer que sou eclético. Gosto de “Rainha”, Garotos da Praia”, “Garotas temperadas” e de “Voce também”. Enfiei a mão na cara dele... promíscuo em todas as esferas, assim não dava... só muito tempo depois entendi o que ele estava querendo dizer. Amiga, voce fez muito bem em despachar o cara... com a conversa dele voce corria o risco de um dia ter na sua “porta” a “policia”...
- Águas passadas... como voce disse, estamos na entresafra – vamos voltar à lista. Eu escolhi algumas, não vou fazer tudo o que tá escrito aqui na revista. Além do mais, a data fatídica já é semana que vem...
- Olha, amiga... cuidado... já te falei que com essas coisas não se brinca... Se voce quer resultado, tem que se empenhar.
- Fica tranqüila, Bê, escolhi algumas bem bacanas. Estou tooooodo dia abrindo a porta de casa, rezando pro santo me trazer aquele que anda sozinho... Dessa vez, ele TEM que me trazer um solteiro, tô cansada de enrosco! Pensar os lugares que eu conheci com o Rodolfo, me dá até arrepio. Alambari, Alumínio, Auriflama, Nhandeara, Iacri, Piquete, Inúbia Paulista, Guzolandia, Lutécia, Cosmorama... tudo isso pra não correr o risco de encontrar com a mulher dele. Tanta viagem, pra vir tudo por água abaixo em Barra do Turvo. Nem gosto de me lembrar... demos de cara com a dita cuja...
- Nem reclama muito, fofa... voce nunca teve que aprender o nome do “dito cujo” prá poder transar com o namorado. Mania besta que o Eduardo tinha. Nunca imaginei que pinto tivesse tanto sinônimo. Era um tal de “hoje quero assar a minha manjuba”, “meu pincel vai te pintar todinha”, “se é dos carecas que elas gostam mais, o meu tá aqui te esperando”, “hoje a mandioca vai ralar”, “vem brincar de médico, que a seringa do doutor aqui tá pronta”, logo prá mim, que tenho HORROR de injeção!
- Pelo menos voce aumentou o seu repertório, saiu do lugar comum. Vara, rola, caralho, cacete... tudo isso já virou vírgula, ponto de exclamação ou reticências. Pica, já é quadro de programa de televisão, aquele com a Fernanda Young, sabia?
- Sei sim... nem gosto muito. Só rindo, prá não chorar, Lê. Tá parecendo que vamos de plano B este ano de novo. De qualquer modo, voce só vai fazer a simpatia da reza? Acho pouco...
- Nãããão!!! Vou fazer uma tentativa pro Carlinhos voltar... Peguei aquela foto linda em Búzios, colei no papel vermelho e escrevi o nome dele em rosa – acho que é uma cor poderosa para essas coisas do amor. Já levei tudo – vaso, vela, flores – lá na igreja de Santo Antonio.
- Carlinhos de volta!? Ficou louca ou caiu de cabeça na maternidade? Você não agüentava o grude. Ele morria de ciúmes, vivia dizendo que voce era a dona do coração dele, que se morresse amanhã morria feliz por ter sido seu e fazia umas serestas RÉÉÉDÍCULAS na janela da sua casa, tipo cantor apaixonado. O seu discurso, mocinha, do qual eu me lembro muito bem, era que voce não tinha essa sede de amor toda, que ninguém é de ninguém mesmo – até que rolasse um casamento com voce toda vestida de branco. Tenho certeza que se o Carlinhos voltasse, voce pisaria no calo dele de novo. Tenha dó, né? Depois de tudo o que voce fez...
- Bê, deixa de exagerar... desse jeito eu fico magoada. Foi Deus que cruzou o meu caminho com o do Carlinhos... quem sabe, dessa vez, se for Santo Antonio, a coisa fica melhor? Sei lá... cada um na sua seara. Deus cuidando dos pecados da gente, Santo Antonio dos relacionamentos. Vou tentar sim! Pelo menos não estou fazendo a simpatia para a volta do... Alfreeeeeeeeeedooooo!!!!!
- Alfreeeeeeeeeedooooo!!!!! Hahahahahahaha!!!!! Pelamordedeus, isso nem pensar! Namorado-slogan de comercial de tevê eu quero distancia... Bonita camisa, Fernandinho... dããã... ou então “Mamãe, este é o Bráulio.” Nem pensar! Nem pensar! Lê, só prá manter a onda... namorado-slogan é uma gelaaaaaada, não desce redondo de jeito nenhum!
- Credo, como voce tá brega, Bê. Piadinhas infames essas... deve ser por causa do tempo. Estamos penduradas no telefone há horas...
- Nossa, é verdade! Nem me dei conta disso. Ainda tenho um monte de coisas prá fazer e vou me atrasar. Bom, o dia tá chegando – o plano B, tá com tudo certo? Voce fez a reserva prá gente no restaurante?
- Fiz sim, querida. Temos reserva no dia 11, no lugar que voce gosta... depois a gente dá a esticadinha básica, que tal?
- Perfeito, Lê. O que seria desse dia dos namorados se não fosse voce... Em branco, nunca passa!
- Não mesmo... comprei uns brinquedinhos prá gente experimentar, voce vai a-mar! Alguns deles tem mil e uma utilidades...Te ligo mais tarde. Beijo!
- Opa! Amo muito tudo isso... Beijo.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

João 8:32

É brincadeira? O que vocês estão querendo? Salvação? Quem foi o imbecil que falou prá vocês esta merda? Meu Deus... o que é isso? Quem disse que eu queria saber a verdade?  Fala prá mim de onde vocês tiraram essa idéia ri-dí-cu-la que contar tudo “resolveria as coisas”! O que vocês querem resolver? A consciência de vocês ou o incomodo que eu provoco? Incomodo nada, é nojo mesmo... Quem falou que tudo se resolveria? Quem falou tamanha besteira?!!! Cala boca! Fica quietinho aí, quando eu quiser que voce fale alguma outra coisa, eu te aviso. QUIETO! Já sei... foi o tal pastor, padre, reverendo, sei-lá-o-que da igreja quem disse essa babaquice e os estúpidos cordeirinhos acreditaram, né? Mééé... mééé... MÉÉÉÉÉ!!!! Rebanho divino de infiéis – vão pro inferno! Fica sentada aí que eu ainda não terminei... Desencana dessa autoridade maternal recém adquirida... ontem irmã, hoje mãe e tá acreditando que por ter falado a verdade já tem esse poder todo? Vaca! Mentirosa! Hipócrita! Como voce pode fazer isso comigo? Lara... a culpa é sua... eu sempre acreditei em voce... confiei em voce... todos os meus segredos, as minhas dúvidas, o meu conflito... e agora...  Maldito livreto sagrado! Vivem prá cima e prá baixo, de casa em casa, de alma em alma, com esta merda agarrada ao peito querendo expurgar o pecado do mundo e o do meu corpo... EU SOU O RESULTADO DO SEU PECADO! Não há nada que possam arrancar de meu corpo, sem que tirem antes de vocês mesmos. As ovelhinhas me fizeram de bode expiatório, né? Não acredito no que estou ouvindo... não acredito... não acredito... tô zonza... zonza... Era uma delícia... Ela pegava as minhas pequenas mãos e me girava até meu corpo flutuar... eu rodava... rodava... rodava... leve... leve... leve... rindo... rindo... rindo... adorando aquela sensação de felicidade... Minha boneca, minha bonecucha, ela me dizia... eu era a sua boneca predileta. Ela sabia que por dentro eu também era uma... queria ser... seria... sou. Aprisionado num corpo estranho a mim mesmo, voava livre na segurança das suas mãos. De novo?! Cala a boca! Cala a sua maldita boca! Quem te deu o direito de soltar esse bafo podre que sai das suas entranhas na minha cara e falar o que bem quisesse? Que porra é essa? Que porra É ESSA!? Tá maluco, Seu Lourival? Tá querendo encontrar Deus mais rápido? Chega desse papo de “a verdade vos libertará”. Chega! Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa... O pecado não se esconde eternamente, fica à espreita como cobra na relva, aguardando o momento certo prá dar o bote... esperando... Picada mortal, certeira e única. Veneno. Morte. É isso. Não é a verdade que nos libertará...  Quantas vezes vou ter que repetir prá voce calar a sua boca. Tudo o que vocês tinham prá me dizer já foi dito... Agora, a franguinha trans aqui vai dar uma de macho mesmo... Cala a boca e senta antes que eu meta uma bala na sua cara agora! Daqui só temos uma saída... Uma porta prá cada um de nós. Eu não tive escolha, nunca tive... Voces decidiram por mim quando não me arrancaram do ventre dela. Vou escolher por todos nós... Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena*... Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal... 
PÁ!PÁ! PÁ...
*citação de Immanuel Kant

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fim

Vazio, oco, desocupado e sem alma, com paredes brancas encardidas, sem quadros ou sinais que indiquem uma vida construída a dois, que gerando quatro não foi uma somatória suficiente para superar a crise dos sete anos. O que incomoda é o cheiro. Esse odor de primeira pessoa no singular, eu, tosca, maquiavélica e estratégica, detentora de um contrato de aluguel firmado há mais de um mês, eu locatária e signatária como se esta fosse a minha própria carta de alforria, onde o escravo se liberta do senhor e invertendo os papéis, escraviza seu mestre em sua própria culpa, substantivo feminino abstrato, doído e perpétuo, um cárcere sem paredes nem correntes e com um caminho de saída que ele jamais descobriria.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Hermanas

Alguns dias são mais iguais que outros. O despertador toca e aquela famosa história “Você é as Escolhas que Faz” começa a ser contada. Levantar ou ficar mais um pouco na cama, vestir saia ou calça, usar sapato de salto ou uma rasteirinha, batom rosa ou gloss, trocar de bolsa ou ficar com a mesma – tantas coisas a serem decididas e a cafeteira ainda não começou a produzir a parte que lhe cabe.
Nestas primeiras horas, você vai lentamente descobrindo quem é – no dia em questão, descobre que é alguém que se atrasou para o trabalho, que ofereceu um show gratuito de calcinha bege ao porteiro do prédio quando bateu um vento indecoroso na saída de casa, que a vaga disponível mais próxima ao seu local de trabalho está a quatro quadras ladeira abaixo e o salto dez vai fazer um teste de resistência – assim como os seus pés, que não tem a mais remota idéia de como tirar a mancha rosa da novíssima camisa off white e, por fim, que deixou na outra bolsa a nécessaire com os absorventes necessários para a visita mensal de Chico. Praticamente uma vida aconteceu aqui e eu ainda nem liguei o computador no trabalho.
Mas, prezado leitor, vamos nos abrir ao Universo. Paulo Coelho e Deepak Chopra dizem que tudo é possível, quem sabe?
Já completamente estressada às oito da manhã, dou início à próxima etapa do dia. Procedimentos profissionais usuais: pegar um café, ligar o computador, acertar as persianas da janela em frente à minha mesa, esperar que todas as cinco páginas memorizadas do Google Chrome sejam carregadas, iniciar o Outlook , abrir o Skype e verificar quem está online, coisas deste tipo. Interrompo a página do banco que está sendo carregada pois de nada adianta ficar acessando a conta pelo sistema remoto, já que a porcaria do saldo que se apresenta insiste em não melhorar. Por sorte, o saldo de cor vermelho freqüente terá dado lugar ao preto inconstante e com tão poucos números antes da vírgula, que nem um ponto entre eles se faz merecedor. Esta malfadada página pode gerar a necessidade de um antidepressivo. É melhor clicar em “fechar” agora!
Dou uma olhada rápida no GMAIL para verificar quais são as correntes salvadoras e inquebráveis que me enviaram hoje (na maioria das vezes, simplesmente deleto... mas temerosa. Vai que... toc toc toc, bato na madeira), ler os textos maravilhosos da turma de escrita, rir com alguns vídeos, conhecer meus novos seguidores do Twitter e confirmar ou não os convites de amizade recebidos pelo Facebook. Verifico o Outlook e vejo na barra inferior o número de mensagens que estão sendo despejadas na caixa de entrada: oitenta e nove.  Suspiro. Já sei o que me espera: inúmeros agendamentos cancelados, contatos de pessoas que não me interessam e respostas estúpidas para emails sérios e assim vai. As pessoas não têm critério com email profissional alheio, você não acha? Por isso decido: primeiro vou verificar o correio pessoal.
Corrente, corrente, corrente – excluir, excluir, excluir; compre Viagra, Cialis e TVs LCD, sátira divertida no YOUTUBE sobre o casamento real, mais um apelo para assinar uma lista de petição virtual para proteger alguma coisa que eu não tenho a menor intenção de proteger, Pedro e Joca querem ser meus amigos, mas não me lembro quem eles são; alerta da Gol confirmando a compra da passagem para Salvador, Eduardo comentou o status da Maísa;  Cynthia, Bel e Carolina também querem ser minhas amigas no Facebook e... opa! Não acredito!? Brincadeira... No meio de tantos convites de amizade, um deles – inusitado e surpreendente - chama a minha atenção. Volto no tempo tão rápido, que fico até um pouco tonta. Quem diria...
Clico no link que me informa “Mafalda de Quino wants to be your friend”. Que deliciosa surpresa! Ainda bem que deixei uma porta aberta ao Universo...
Começo a fazer algumas contas e, se eu não estiver errada, desde setenta e três não tenho notícias frescas dela. Deve estar com quase cinqüenta anos, pois era aproximadamente um ano mais velha. Será que ela pinta os cabelos?
Logo após ter aceitado o convite, recebo nova mensagem dela “¡Paren el mundo, me quiero bajar! La puta que la pario, Sylvia ¿como estás?”
Eu, que já estava surpresa com o reencontro virtual, fiquei mais estupefata ainda com o vocabulário. Teria ela se tornado uma boca suja? Nãããão, Mafalda, não! Ela era contestadora do tipo dura, mas que não perdia a ternura. Jamais. Pensando bem, quando ela gritava BASTA!... não era nada terno...
“Querida, que saudades? Por onde andas? O que você faz? Casou? Tem filhos?” A quantidade de perguntas que eu tinha era imensa e todas comuns – mas perguntar à Mafalda se ela tinha se casado, era de uma imbecilidade ímpar. Era mais do que improvável, era absurdo que estivesse casada. A resposta que recebi não me surpreendeu. “Estoy en San Pablo, haciendo un curso de Historia Politica en la USP. Me quedo acá por una semana. ¿Podemos encontrarnos?
Isso sim era Mafalda. Trocamos rápidas mensagens e a convidei para me visitar – impossível perder esta oportunidade depois de tanto tempo. Estava me sentindo novamente com dez anos à beira de completar cinqüenta e, cá entre nós, sempre fui apaixonada por ela. Não no sentido bíblico. Se tiver outro sentido, era esse.
Adorava suas respostas rápidas, língua afiada e comentários oportunos. Era meu sonho deixar meus pais sem ação, como acontecia com os pais dela. Lembro, e dou muita risada com estas lembranças, de ocasiões onde ela queria saber de qualquer jeito, qual era o sexo da Terra (ou seria Mundo?) ou quando não conseguiu dormir, de tanto rir, quando leu o significado da palavra democracia. Hoje acho que tenho um pouco dessas características por causa do curto, mas intenso, período de nossa amizade. Isso, sem falar no óbvio: nós duas odiávamos sopa.
Cá entre nós, este problema com a sopa eu não demorei muito a superar. Depois que minha mãe descobriu que sopa com macarrão de letrinha era uma diversão e disfarçava o sabor, nunca mais sofri tomando sopa. Passei a brincar tentando identificar a letra que estava na ponta da minha língua, enquanto ela enfiava uma colherada atrás da outra, goela abaixo. As mais complicadas, pois eram muito fáceis de serem confundidas, eram: L e 7, 5 e S, B e 8, I e 1, 9 e 6. Se você nunca fez isso, ainda há tempo – use o neto ou o filho mais novo como desculpa.
Uma de nossas brincadeiras preferidas era colocar o globo numa cama, como se ele estivesse doente, fazer curativos ao seu redor e torcer para que ele se curasse logo. Eu ainda estou esperando ele se recuperar de alguns maltratos sofridos e tantos outros que ainda acontecem.
Mesmo sem ter o menor perfil para ser miss Argentina ou Universo, Mafalda já se preocupava com a paz mundial. Eu, que pouco entendia o que ela falava, achava tudo aquilo muito engraçado. Liberdade, Humanidade, televisão e Beatles estavam entre seus assuntos favoritos.
Marcamos nosso encontro – e o dia que parecia ser do tipo “mais um”, graças ao Universo e à dupla criadora do Facebook transformou-se em “o dia” e gerou a expectativa do tetê a tetê.
Sábado seguinte, quase uma hora depois do combinado, toca o interfone de casa. O porteiro me avisa que chegou a visita que eu esperava e que ela falava muito enrolado. Autorizo a entrada e espero.
Abro a porta e lá está ela. Pouca coisa acima do peso, calça jeans e camiseta branca – estilo socialista despojado chique. Emocionadas, nos abraçamos. Convido-a para entrar. Será uma tarde deliciosa de lembranças e risadas.
Mas uma coisa me incomoda: após todos esses anos, usando essa roupinha descolada, ela não mudou o corte de cabelo? Deixo esta pergunta de lado, afinal não quero parecer indelicada e temos muito para conversar. Ofereço vinho, ela aceita e a tricotagem começa. A tarde será longa...
Ah... e antes que eu me despeça, quero esclarecer uma coisa para você: sim, naquele dia, quando recebi o convite da Mafalda eu trabalhei e também descobri como salvar a minha camisa branca off white.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Agora é hora de alegria

Alguém que tenha em seu curriculum vitae dois casamentos, dois filhos, dois enteados, duas sogras, cinco cunhados, uma irmã, sete tios, um padrasto, quatro avós, catorze primos e aproximadamente dois mil, quatrocentos e noventa domingos, pode dizer, assim de chofre, que o almoço dominical familiar não tem cor, nem credo: c'est tout la même chose.

Antes de me tornar uma das protagonistas de cenas óbvias, como apertar entusiasticamente bochechas rosadas exclamando “Como você cresceu!”, e na seqüência emendar com o famoso “precisamos nos ver mais vezes”, fui parte integrante do casting de apoio desta peça pessoal que está em cartaz há mais tempo que “Trair e Coçar”. 

É bem verdade que cenário, figurino e alguns atores mudaram ao longo do tempo, mas o enredo passou por pouquíssimas revisões. Alguns modismos foram incorporados, coisa que ninguém merece e está longe de ser chique no último, mas desde que me entendo por gente e vejo o Tarcísio Meira fazendo papel de galã às oito da noite, esta sutil reciclagem acontece. Porém, em nenhuma destas revisões – uma só vez que fosse – incluiu a correção dos erros de português cometidos pela famiglia. Isso, nem a pau, Juvenal – a manutenção de “um chopps e dois pastel” é uma questão de honra!

A principal diferença entre a tradicional lasanha bolonhesa da nonna, com massa caseira e molho de tomate pelado italiano, cozido por horas a fio até chegar ao ponto ideal para só então receber as mini-micro-minúsculas “porpetas”, enroladas uma a uma na noite anterior enquanto a conversa flui com a TV da cozinha ligada, e o sarapatel de mãinha carregado de coentro, hortelã e salsinha, miúdos de porco milimetricamente cortados, que também é preparado por horas intermináveis, está no cheiro do palco de quem preparou a iguaria, ou seja, a cozinha. Entram em cena aqui, as fiéis escudeiras – Dilma, Maria ou Luzinete - que há muito tempo acompanham todos os nossos personagens, choram com os nascimentos, sentem as partidas, mas chova ou faça sol, estão com o roteiro na ponta da língua.

Pode ser que, pelo fato do movimento de emancipação feminina ter sido iniciado na terra do fast food e longe dos fogões, alguns belos sutiãs foram queimados à toa. Quando a comida ansiosamente aguardada e fumegante chega à mesa em travessas pirex, envoltas por panos de prato e acompanhadas dos gritos de “tá quente!” e “abre espaço na mesa!”, neste momento os homens se aboletam ao redor da mesa e esperam para serem servidos. As amélias entram em cena e Simone de Beauvoir rola de raiva no túmulo. Uma porção disso, aquilo não quero, põe um pouco mais de molho, arroz não precisa e, assim que terminam esta etapa, partem para a próxima que é servir os filhos. Esta é muito mais rápida, pois estando entupidos de salgadinhos diversos, dizem não à praticamente tudo. Ritual terminado é chegada a nossa vez. Sim, eu perpetuo este ritual... Esse papo de mulheres e crianças primeiro, só em naufrágio de navio. Chico cantou algo a este respeito, por isso imagino que em Atenas seja assim também. 

Tanto na família ítalo-paulistana quanto na carioca-nordestina a quantidade de comida servida alimenta os meus, os teus e os nossos, e também as  torcidas do Flamengo e do Corinthians. E pode ser que sobre para a quentinha.

Campeonato paulista, carioca, baiano, italiano e espanhol; peteca, bolinha de gude, automobilismo e tênis, são os temas para a conversa masculina, enquanto a novela, o casamento real britânico, botox e o melhor produto para cabelos ressecados, permeiam o bate papo feminino. Assuntos comuns aos dois lados desta moeda são o transito nas cidades, a falta de tempo e o cenário político nacional. Se a discussão não aconteceu na hora do futebol, pode ser que aconteça aqui. Hora de oferecer um licorzinho e o café.

Na proporção de seis “boa noite” do William Bonner para um “vamos sorrir e cantar” de Silvio Santos é que esta e outras histórias são lentamente construídas. Marcas, nem sempre aparentes mas muitas vezes expostas em terapia, acrescentam um ineditismo a cada uma delas que só encontramos paralelo nas impressões digitais.

O domingo de número dois mil, quatrocentos e noventa e um terminou e só me resta ter aproveitado este espetáculo da melhor maneira possível e aguardar pelo próximo, para dar continuidade aos capítulos desta biografia.

O que ela conta e como, quem escreve sou eu. Já o epílogo...



quarta-feira, 13 de abril de 2011

Exercicio de antroposofia

Mais um exercício - desta vez de Antroposofia. Após alguns dias trabalhando com a imagem abaixo, tínhamos que escolher um dos personagens e escrever a sua história. A outra parte do exercício: após ouvir a história, seus companheiros de grupo deveriam dizem qual foi o personagem escolhido. E eu te pergunto: qual foi o que eu escolhi?

De uma aldeia longínqua, Clara ouviu a história do Homem que curava as dores do mundo.
Sem dúvida em seu pensar, arrumou suas coisas, preparou pequenas porçoes de alimentos para si, embrulhou seu filho nos panos que possuía, sorriu e partiu.
Os dias de caminhada que se apresentavam não foram desestimulantes.
Em seus braços carregava o motivo de sua viagem, Tiago, que nascera há poucos dias e a alegria que Clara sentia, invadiam todo o seu ser.
Quando ainda grávida ouviu a história do Mestre que alentava aos enfermos e os curava, dava fé aos descrentes e alimentava os que tinham fome, decidiu que, assim que seu filho nascesse, iria apresenta-lo a Ele.
Acreditava, dentro de seu mais profundo ser, que alguém coom as palavras e gestos tão grandiosos, só poderia ser uma força de amor. e esta força, ela iria apresentar a seu filho.
Suas pernas queriam desobedecer seu corpo e interromper o caminhar. Porém, o que comandava esses movimentos, um após o outro, era muito mais forte que os músculos extenuados e ossos cansados de Clara. Determinação e fé eram seus suportes.
Árvores foram seus abrigos durante a árdua jornada, seu peito, todo o alimento que Tiago necessitava, grutas acolheram seu dormir e riachos saciaram sua sede.
Finalmente, ao chegar à cidade - que já estava em polvorosa e cheia de pessoas procurando o Mestre - deparou-se com todo o tipo de gente. Desde pessoas que lá estavam para ver qual era a riqueza que este Homem possuía, até os mais miseráveis dos seres. Homens, mulheres, ricos, pobres, senhores e escravos... todos estavam lá.
Pacientemente, Clara esperou pelo seu momento.
Lentamente, caminhava em direção ao Mestre até aproximar-se Dele.
Emocionada, com seu filho em seus braços, um sorriso de satisfação abriu-se em seu rosto.
Levantou seu pé direito e subiu o último degrau que a separava de seu objetivo.
Postou-se diante Dele, ergueu seus braços e apresentou o seu amor maior, ao Maior dos Amores.
http://www.oskarmorawetz.com/Tabs/TabPerson/images/FullSize/PaintingRembrandt100Guilder.jpg

terça-feira, 12 de abril de 2011

A esfinge do saber

O desafio desta aula, era criar um texto "labiríntico". Preciso confessar que eu faltei a esta aula e uma informação importante, ficou de fora no meu exercício: inusitado, diferente, inesperado eram objetivos desta lição. Não ficou inusitado, mesmo assim, gostei do resultado e de perceber as possibilidades de hiperlinks e outros recursos tecnológicos. Se voce quiser xeretar outros materiais produzidos pelos meus companheiros de sala, convido-o a visitar também: http://escritaintermediaria.blogspot.com/

Uma vez aqui dentro não há mais saída. De aula em aula, frases, textos e palavras monitoradas pelo relógio, apresentadas por ela e absorvidas por todos. Ao final, temos à nossa frente um caminho a escolher. Caminhos são escolhas e cada escolha significa que estamos descartando algo. A obviedade nunca está lá presente, só nesta última frase. O que fazer? Como fazer? Quando fazer!!!??? Só há uma entrada e uma saída para possibilidades diversas de caminhos a serem percorridos. Porém, um único poderá levá-lo ao êxito.
Poesia fica de fora, o que vale é a prosa. Prosa, é aquele jeito gostoso de falar, ao pé do fogão com café feito na hora, sendo acompanhado de pão de queijo. Pode ser com bolo de fubá, ou broa, o importante é ter gente proseadora. Coisa de mineiro, baiano, gaúcho ou, prá ser mais simples, coisa de brasileiro. Jeito de contar história, falar de amor, de ódio ou de quando nada está acontecendo. Isso também vale – e rende muito assunto, prosa prá mais de metro!
complicômetro surge quando, no meu caso, sendo mulher e cheia de botões mentais, fico sem conseguir me decidir qual deles apertar, qual caminho seguir e por onde andar. É uma mistura de Minotauro com Esfinge – se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.
A única certeza, é que uma vez aqui dentro não há mais saída.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Consciência tranquila

Conferiu pela última e definitiva vez todo o equipamento necessário: lenço branco, placa de madeira, alfinetes, pinça e tesoura sem ponta. A  barraca surrada já estava montada, a lua brilhava no céu. Chegou a hora.
Nem se lembrava mais há quanto tempo planejava isso. Parecia uma eternidade, mas na realidade não fazia mais que três anos e isto não era importante. O que realmente importava era o sentimento que nutria desde o inevitável dia em que sua mãe lhe contou aquela história pela primeira vez. Medo.
Estava cansado de sempre se sentir entre a cruz e a caldeirinha quando fazia alguma coisa. Qualquer coisa. Dúvidas sinistras rondavam sua pequena, mas já confusa, cabeça. Qual o caminho devo tomar? Falar ou não a verdade? Oras, e o que é verdade? Quem decidiu o que é certo ou errado? Onde está o caderno de regras? E por que as abomináveis regras não são aplicadas igualmente a todos?
Conhecia muitos iguais a ele, que se safavam facilmente – e sempre imaginou o que teriam feito para saírem ilesos. Como eles conseguiam? Desde que ouviu a historia, soube na hora quem estava por trás de tudo isso. E desde então, nunca mais teve sossego. Precisaria se livrar dele.
Dia e noite, em casa, com amigos, nos finais de semana, ficava atordoado com a idéia de que ele pudesse aparecer e cricrizar a sua vida: isso não é certo! Você será descoberto! Faça isso! Pense bem! Olhe o caminho!
Basta! Hoje, terminaria seu tormento.
Acomodou-se na barraca, tirou os tênis pisca pisca. A tênue luz da lua era suficiente para dar a visibilidade necessária, à espera do inimigo. Vantagens do campo. O som do vazio externo aos poucos foi se transformando e trazendo a vida da mata. Cricricri... cricricri... Seus sentidos o alertaram: estão por perto. Ele está lá fora.
Repensou minuciosamente os detalhes de seu fabuloso plano de liberdade: jogar o lenço sobre um deles e com as mãos em concha, envolve-lo sem machucar, de maneira firme para que não fuja. Com a esquerda, mante-lo imóvel e com a direita, espetar o primeiro alfinete numa das patas, prejudicando sua mobilidade. Espetar o segundo alfinete e depois o último, no rabo.
Já livre do lenço e com seu inimigo sem chance de escapar, observar. E agora, seu estúpido? Vai continuar me assombrando? Acha que pode me atormentar assim e sair impune? Hoje, chegou a minha vez... Esperei tempo demais, não sou mais o menino bobo de antigamente, já tenho dez anos!
A sua dúvida perversa era se cortaria primeiro uma das patas, ou se espetaria outro alfinete no corpo. Optou por cortar a pata. Sentiu prazer com a imagem de agonia que veio à sua mente.
Estava imerso em seus pensamentos e não se deu conta que os barulhos da mata aumentaram e ficaram bem mais próximos. De repente, um deles entrou em sua barraca, pulando rapidamente e direto em seu rosto. Com o susto, o instinto falou mais rápido que o planejamento, e com um tapa rápido afastou o inseto de seu rosto e logo pegou um tênis, e paft! Matou o grilo.
Olhou, desolado para o bicho esmigalhado. Que droga, não era assim que eu tinha pensado. Tanto planejamento detalhado, tanto tempo investido...
Porém, uma leveza que há muito não sentia, invadiu seu recém formado corpo infantil e tomou todo o seu ser. Sorriu.
Finalmente estava livre do terrível Grilo Falante. Agora, podia mentir à vontade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tik. Ou a arte de surpreender.

Dar presente.
Uma olhada rápida no calendário e... é hoje!
Dia dos Pais, das Mães, dos Namorados, dos Avós, dia Disso, dia Daquilo. Datas comemorativas famosas como Natal ou Páscoa e outras nem tanto, como o dia do Goleiro (26 de abril) ou o dia do Pedicuro (4 de novembro).
O comércio não nos deixa esquecer destas ocasiões que são amplamente anunciadas por todos os cantos da cidade. Difícil fingir que não viu ou dizer que se esqueceu.
Tenho amigas, muito precavidas e atenciosas, que se antecipam a praticamente todas essas datas. Viajando ou em um simples passeio pelo shopping center, compram verdadeiras pe-chin-chas, que são guardadas para aquele dia especial. Lembrancinhas para a Páscoa, estocam presentinhos para o Natal, mimozinhos comprados para a criançada e vários outros “inhos” que serão ofertados nestas datas tão especiais.... ou nem tanto.
Aliás, acredito que utilizem tanto o diminutivo para, quem sabe, aliviar o valorzinho da fatura do cartão de crédito que chega no final do mês.
Desta maneira evitam surpresas e podem demonstrar sua afeição e atenção ao presenteado, na hora certa. Delicadeza, certo?

Nem sempre.

O ato em si pode ter propósitos diferentes: desde o mais genuíno amor e prazer em reconhecer e agradar quem vai receber o presente, até o mais puro ato de bajulação. Fica a critério do freguês. Até o medo pode ser motivo para presentear: imaginem o risco que corre um executivo que se esqueça do Dia da Secretária. Deus me livre esquecer o dia do Cabeleireiro (3 de novembro)!!!
Virar a folha do calendário também pode levar ao pânico, quando as datas celebradas são os aniversários de entes queridos – ou nem tão queridos assim:

- Ai, meu Deus!!! Fevereiro chegou... vou à bancarrota! Avó, afilhado, pai e madrinha... todos fazendo aniversário este mês. Até minha sogra!! Assim não é possível. Ano que vem, saio de férias em fevereiro, vai ficar muito mais barato!

Os presentes-com-data-horario-e-local-marcados, podem se transformar em verdadeiras bombas relógio, caso o presenteado demonstre – mesmo que sutilmente – desagrado com o que recebeu. Mas isto, já é outra história.
Dei o presente, quem recebeu sabia o que estava acontecendo. Fechado o ciclo.
Presentes, nem sempre vem embrulhados em papel decorado, com fitas e cartões. Às vezes chegam de maneira inusitada, surpreendendo às duas partes: quem recebe e quem o deu.
Um sorriso ou um olhar, até podem parecer óbvios, em se tratando de ofertas gratuitas. Algumas frases, nem tanto – elas dependem do momento vivenciado e da interpretação de quem as ouve ou lê.
A emoção que desencadeiam, nem sempre são proporcionais ao que foi dito, e isto realmente não importa. Quem ouviu ou leu, sentiu-se prestigiado, valorizado. Querido.

“Cadê você prá me ajudar com a mala?”
“Prá tomar a decisão, me inspirei em você.”
“Vocês que me abriram a porta pro mundo...”
“O que eu mais queria, era Fulano aqui comigo.”

Estes presentes não têm cheiro nem cor, são gratuitos fáceis de identificar, surpreendem e são sempre lembrados.
Quem ofertou nem sempre tem consciência do que fez.
Quem recebeu, sabe o nome da jóia: reconhecimento.
Preciosa e eterna, como os diamantes.

Para Camilla, Gilmara e Denise. E claro, Tik e Veríssimo!

domingo, 13 de março de 2011

Crie patas... muitas!

O primeiro passo
Luis Fernando Veríssimo

Que será que ele queria? – Quem? – O Tik. – Que Tik?
- O Tiktaalik roseae. O peixe com patas que encontraram fossilizado no Canadá. O tal elo que faltava entre a vida primeva no mar e a vida animal na terra. Entre o peixe e o réptil e tudo o que veio depois, incluindo você e eu. A primeira prova definitiva de que uma espécie se transforma em outra. O que ele queria?
- Não queria nada. Evoluir não foi uma decisão sua. Aconteceu. De acordo com a teoria clássica da evolução, mutações aleatórias determinam a sobrevivência de uma linhagem. Uma linhagem de peixes simplesmente criou patas e por isso pôde sair do mar e caminhar na terra.
- Não, não. Não subiu à terra porque criou patas. Criou patas porque queria subir à terra.
- Você acha que ele pensou: “Chega de viver na água, vou tomar um solzinho na praia e começar uma outra forma de vida”, e criou as próprias patas?
- Não. Mas alguma coisa o impeliu. Uma visão. Um plano inconsciente. Uma vontade misteriosa que fez com que a sua linhagem, através de milhões de anos, desenvolvesse patas para pisar na terra. E ele, o Tik, desse o primeiro passo.
- Não me venha com design inteligente.
- Não. Não sei o que é esse ímpeto ou que nome tem. Seja o que for, a evolução não o explica. Nada o explica. O que ele queria? Tinha tudo do que precisava no mar. Era um predador de bom tamanho e dentes afiados, e tinha pescoço. Podia olhar para trás, coisa que nenhum outro peixe pode. Portanto, era um sucesso na cadeia de alimentação. Mas quis abandonar tudo isso por uma aventura terrestre. Por quê?
- Está aí a sua resposta. Ele era um predador. Tinha o ímpeto do predador. Subiu à terra na busca de alimentos diferentes. Só queria uma boa dieta diversificada. Durante milhões de anos, sua linhagem namorou os frutos da terra, sem poder alcançá-los. E era tanta a sua fome de novidades que ela acabou desenvolvendo os meios para ir pegá-los. É como na versão bíblica da Criação, a história da Eva e a fruta proibida. Adão e Eva também tinham tudo do que precisavam, mas queriam mais, queriam outra coisa. Como o Tik. E a sua inconformidade também deu origem à Humanidade, segundo a Bíblia. Fome e curiosidade são as duas forças que movem o mundo. Fome e curiosidade são as responsáveis por tudo. Até pata em peixe.
- O fato é que se o Tik não tivesse dado aquele primeiro passo toda a vida animal se desenvolveria no mar. Você e eu hoje, teríamos guelras e nadadoras em vez de membros.
- E não poderíamos estar tendo esta conversa.
- Sei não. Dizem que os golfinhos conversam...
- Mas não especulam, não tem teses, e não se maravilham como nós.
- Obrigado, Tik.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Lugar para um

Quarta-feira, oito e vinte e quatro da noite no relogio de parede do restaurante. Transito caótico e chuva torrencial.
São Paulo.
Ele entra no restaurante sofisticado de shopping center, é recebido pelo maitre que pergunta quantos lugares e ele responde: lugar para um.
De estatura mediana, careca estilo Sean Connery, óculos de aro fino como o personagem de Monteiro Lobato, Dr. Caramujo, traja camisa social de mangas curtas, listrada azul-e-branco, calças pretas. Poderia ser um contador. Bem sucedido. Talvez.
Sobre a mesa, além de talheres, copos e pratos, um Iphone, água com gás, whisky com muito gelo e uma sacola plástica da Droga Raia.
Recostado em seu lugar único, pernas estendidas e cruzadas sob a mesa, toma um gole de seu whisky, discretamente olha ao seu redor, outro gole de whisky. Inércia. Estático por uns momentos. Parece morto, mas não. Dorme. Cochila. Desconecta-se.
Passados dez minutos, não mais do que isso, abre novamente os olhos, espreguiça-se de maneira imperceptivel, olha ao seu redor, toma um gole de água e senta-se de maneira ereta, checa seus emails pelo Iphone, toma outro gole de whisky. Aguarda.
O garçom se aproxima, pede licença e serve o jantar.
Em instantes, ele termina o que foi servido, pede a conta, sem café, paga e vai embora.
Nove horas e doze minutos entra no táxi e parte.


Pai, feliz aniversário!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Qual é o momento certo?

Vamos bater um papo?
Se voce me segue, deve ter reparado no silencio que este blog ficou nos últimos tempos.
Trabalho, final de ano, filhos, cachorro, marido e preguiça, invadiram meu abecedário, levaram todas as letras e fiquei incapacitada de reuni-las novamente. Esta não é bem a palavra, mas vai ficar aqui. Estou retomando!
Dificuldade de juntar tudo... sem as letras então, que foram levadas por não sei quem ou o quê, mais complicado ainda!
O tempo foi passando, o silêncio aumentando, as letras ficando cada vez mais escondidas, quase impossível de reave-las. A vontade, o desejo de escrever, dizer coisas bacanas, juntar as letras, juntar tudo e postar, me expressar e exercitar esta arte que estou aprendendo, existia. Mas aguardava "o momento".
Sentei varias vezes em frente ao computador, fiz rascunhos, guardei uns, deletei outros. Os caderninhos de anotação estão relativamente cheio de idéias, mesmo assim, a dificuldade de usa-las e transforma-las em texto permanecia.
As letras N - A - D - A, pareciam ser as únicas do vocabulário que se encontravam com frequencia.
O tal do "momento certo", realmente existe?
Acho que não. Pelo menos, prá mim, não foi isso o que aconteceu.
Vários momentos passaram onde:

Não exercitei a escrita.
Deixei de treinar combinações, ordem de palavras, desordem de pensamentos.
Não me aprimorei nem li seus comentários, criticas e sugestões.
Passei, literalmente, em branco.

Que, de todos os momentos em branco que eu venha a ter, este tenha sido o mais longo de todos!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um conto qualquer

Fulana era uma boa pessoa.
Boa mãe, daquelas que corre na hora do almoço para buscar os filhos na escola (e de quebra, bater um papo com a professora).
Boa esposa acompanhava o marido a jantares com os amigos, colegas de trabalho, estava sempre com a depilação em dia, manicure perfeita, cabelos arrumados e perfumada. Até na cama, dava para o gasto.
Boa profissional, cumpridora de prazos, tinha idéias criativas, fazia planilhas excelentes e estava no mesmo emprego há alguns anos.
Tinha poucas amizades, considerava que a maioria das pessoas que conhecia eram apenas colegas. Amiga mesmo, somente Sicrana que conhecia desde a época do colégio. Com ela, conversava sobre tudo. Fulana foi madrinha de casamento da amiga, já Sicrana, era madrinha de um dos filhos de Fulana.
No prédio, a vizinhança não tinha do que reclamar – mesmo quando os filhos de Fulana se excediam na gritaria e brincadeiras na piscina. Estes sim eram considerados pela vizinhança mimados e mal educados.
É... no geral, Fulana era uma boa pessoa. No geral.

Quem discordava disto, era Elicleide.
Fruto de uma pulada de cerca de seu pai, Eli, que não conseguiu resistir aos encantos de sua mãe, Cleide. Completamente apaixonada e sem a menor condição de ter o pai de sua filha ao seu lado, Cleide resolveu unir os dois para sempre de qualquer maneira. Assim, decidiu o nome da filha: Elicleide. Desta maneira pelo menos, perpetuava a união que jamais aconteceria de fato.

Elicleide trabalhava na casa de Fulana (“Dona Fulana, Elicleide! Olha a intimidade!”) há dois anos, desde que sua prima Jacira voltou para Sergipe.
Quem precisa, faz cara de quem gosta – é o que sua mãe respondeu, quando Elicleide perguntou se deveria aceitar ou não o emprego. Jacira já havia contado algumas situações vivenciadas com Dona Fulana, nada agradáveis. Elicleide resolveu fazer cara de quem gostava e aceitou o emprego.

Como sempre, o serviço era completo. Limpar, cozinhar, cuidar das roupas e das crianças. Entrar cedo e sair quando fosse liberada – ser mensalista tem suas vantagens e desvantagens também, mas pelo menos, não precisava dormir no emprego.
 Quase sempre chega no horário, gosta de ser pontual, mas  quando chove ou motoristas e cobradores fazem greve, se atrasa um pouco. E isso é motivo suficiente para começar o falatório de Dona Fulana.

- O que é isso, Elicleide? Eu pago prá voce estar aqui às sete horas, são quase oito! Onde já se viu? É por isso que esse país não vai prá frente, essa gente não quer trabalhar, não se organiza, bota a culpa em tudo, mas responsabilidade que é bom, nem pensar... nem pensar!

Elicleide preferia se atrasar e ouvir tudo o que Dona Fulana tivesse para dizer, a fazer qualquer outra coisa errada. Atraso, não era descontado de seu salário, já o resto...
Lavar louça era um tormento. Tremia só de ver a pilha de louça. A taça de vinho que escorregou e quase cortou sua mão, foi descontada do salário. Nunca imaginou que um pedaço de vidro de cabo comprido, fosse tão caro. Trinta e cinco reais! Onde já se viu um absurdo desses? E com tanto copo de requeijão sendo jogado fora, é um desperdício. Pelo menos, Dona Fulana permitiu que o valor fosse parcelado.

Ao longo dos dois últimos anos, morria de medo de quase tudo: de lavar, passar, de fazer o seu serviço. Nem se importava com a falta de reconhecimento, mas os descontos no salário doíam demais. Ela não fazia de propósito, seguia todas as recomendações de Dona Fulana, mas às vezes não entendia bem o que era para fazer. E algumas vezes, o que fazia dava errado, como na última vez que pediram para que limpasse a mancha no sofá branco, e ela usou água sanitária. Diacho, como iria adivinhar que couro não pode ser limpo com cândida? Esse conserto ela ainda estava pagando. E tudo o que ouviu, ainda ecoava em sua cabeça. Pensou em desistir, conversou com a mãe em casa, chorou. E ouviu a frase de sempre: “Minha filha, quem precisa faz cara de quem gosta.” Resignou-se.

Sendo essa a vida, era essa vida que levava religiosamente, de segunda a sábado, só tendo folga aos domingos.
Além do trabalho, outro compromisso que Elicleide cumpria religiosamente, era ir até a lotérica, duas vezes por semana e fazer o seu jogo na Mega Sena.
Marcava sempre os mesmos números: 04 – 12 – 27 – 33 – 41 – 58, e antes de entregar o bilhete e efetuar o pagamento, rezava a mesma oração, baixinho: “Meu sinhô, meu sinhozinho / Luz de amor e de justiça / leve aqui o meu joguinho / e abençoa, por favor / essa sua devota / e os números que ela aposta”. E seguia para sua casa. Às quartas e sábados, ficava atenta a espera do resultado. Após o resultado, sempre pensava: “Na próxima, meu sinhozinho. Tenho fé, pois água mole em pedra dura, sempre bate até que fura. Amanhã, jogo outra vez!”

Se por um lado, a fé permanecia forte e inabalada, por outro, Elicleide não se deu conta de outro sentimento que crescia dentro de si. Como a vida era desse jeito mesmo, não tinha tempo para pensar nessas coisas. Seguia em frente. E despretensiosa,  quase sabendo que o tempo era seu maior amigo crescia a passos lentos, a raiva. 


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Moral. Moral?


Era uma bela peça de arte. Realmente, a primeira colocação foi merecida.

Na parte inferior do canto direito, era meu o nome que assinava a tela.
As cores, os traços e até mesmo a idéia, partiram de Marineide.
Mas as letras e a caligrafia que identificavam a autoria eram claras: DÉIA MENDONÇA. Com acento no E.

Incapaz de pintar e tendo que participar do concurso (nem me lembro o porque), lembrei da máxima proferida na aula de Literatura, quando o assunto era Machado de Assis, pela digníssima professora:

- Não tenham vergonha de pedir ajuda. 

Foi o que fiz, assim que me dei conta do desafio que se apresentava. Pintar um quadro para o tal concurso. (Quem foi que me inscreveu mesmo?)

Pedi.

Marineide aceitou.

O premio em dinheiro, é meu.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Bombas


Uma é doce... a outra, amarga
Envolta em papel delicado, traz prazer a cada bocado.
A outra, se aproxima aos poucos e desfecha golpe certeiro e mortal
Uma, me apraz... a outra, me desfaz.
Alguns segundos na boca, tortuosos minutos no ouvido
Uma eu devoro, a outra me consome.
Fruto de um desejo...
Fruto da desatenção...
Ambas tem seu tempo findo
Uma, meses na cintura...
A outra, anos no coração.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amor barato



Pisava duro, determinada e cheia de raiva, do alto de suas sandálias prateadas, companheiras de guerra e de pagode. Basta!, pensou Marli. 
A caminho do bar, os últimos nove anos passaram - dia a dia - pela sua cabeça. Promessas, juras de amor, bichos de pelúcia, sexo suado com cheiro de cerveja, todos os momentos vividos com Negão foram novamente sentidos a caminho da desforra final.
Ela nem era do tipo que gostava de escândalos, tinha aprendido a ficar quieta e se controlar. Isto era fundamental quando se divide o homem com outra mulher. Mas tudo tem limite e, desta vez, ele ultrapassou. E muito.
Marli estava com Dr. Pedrosa, dentista do bairro, terminando de consertar uma ponte que havia caído da maneira mais estúpida que se poderia pensar. Na noite anterior, um dos clientes estúpidos, em um movimento estúpido, bem na hora do meia-nove, acerta uma joelhada na boca de Marli. Além do nocaute sofrido, uma ponte dentária perdida.
A recepção do consultório do Dr. Pedrosa, parece um salão de beleza, tão grande é a algazarra e falação de quem está esperando para ser atendido. Uma muvuca.
Foi ali, de boca aberta, cheia de parafernálias enfiadas na boca, que ela ouviu a história que mudaria tudo.
Reconheceu as vozes de Edileide e Márcia, conversando na recepção. O assunto era Negão e a imbecil da mulher dele, Nicéia.
Na verdade, mulher era força de expressão, pois eles não eram casados. Moravam juntos há catorze anos, mesma idade do descuido dos dois, Benedito.
Desde então, pelo "bem do menino", moram na mesma casa.
No bar do Joca - o local onde tudo é celebrado no bairro, de nascimento a enterro, de casamento a separação - semana sim, semana não, um dos dois aparece com olho roxo, arranhões pelo corpo, cabelos desgrenhados e cheirando a pinga. Outra briga. Para quem quiser ouvir, o discurso é sempre o mesmo - ou vai matar, ou vai morrer, que esta foi a última vez, isso nunca mais vai acontecer, que não se pode viver assim, blá blá blá.
Foi em um desses dias que Marli se apaixonou por Negão. Aquele homem, machucado por dentro e por fora, urrando feito animal as suas dores, mexeu com ela. Sem conseguir controlar seus impulsos, levantou-se, foi ao banheiro, molhou um chumaço de papel higienico e, na volta, foi limpar as feridas que Negão apresentava.
A partir deste momento, o resto é história...
Márcia, voz alta, parecendo uma gralha contava, a quem quisesse ouvir na recepção do consultório, que Negão e Nicéia estavam ficando noivos, no bar do Joca, com tudo o que tinham direito. Inclusive, anel de noivado.
Edileide, soltava exclamações a torto e à direito, como se realmente estivesse feliz ou se importando com os dois. O que ela queria mesmo, era sair logo do dentista e ir para o regabofe.
Marli, quase engoliu  o espelhinho que Dr. Pedrosa tinha em mãos.
Filho da puta!, gritou ao mesmo tempo que chutava a mesa de apoio do dentista, fazendo com que espéculos, pinças, bisturis e um sem nome de instrumentos voassem pelos ares. Isso não ia ficar assim.
Dr. Pedrosa, bem que tentou, mas foi inútil tentar domar a fera que neste momento nascia incontrolável. Marli saiu enfurecida.
Chegando ao bar, qualquer lembrança carinhosa que tivesse, sumiu.
A cena, por si só, era mais do que suficiente e, neste momento, lembrou-se da frase sempre repetida pela sua avó, que desgraça pouca é bobagem e sempre vem acompanhada.
Lá estava Nicéia... bebendo... sorrindo... rebolando e... com um anel no dedo direito. Era verdade, o fato estava sendo consumado.
Não bastasse a vergonha dos anos escondida, engolindo, amando em segredo mas sempre acreditando, agora havia um troféu escancarado em sua cara mostrando a sua derrota. E não era um troféu qualquer. Era um troféu de noivado.
Lá estava ele, um anel de um rosa tão intenso, como ela nunca vira na vida. Em meio àquele sacolejo todo, ele se destacava, como coisa de madame rica, chique, rosa, intenso. Era demais para ela. Ficou cega de ódio.
A partir daquele momento, Marli não se lembra mais com clareza o que aconteceu - mas a vizinhança se lembra dos detalhes até hoje.
Marli, voou para cima de Nicéia com uma fúria só vista nas lutas de vale tudo - não havia quem conseguisse desgrudar as unhas de uma cravadas no pescoço da outra.
Mesas, cadeiras, garrafas quebradas, "deixa disso" prá cá e prá lá, choro de criança, tudo misturado ao mesmo tempo, ninguém mais conseguia identificar quem batia e quem apanhava. Sobrou geral.
De repente, no meio da fuzarca toda, um grito lancinante, longo, doído se fez ouvir por todo o bar. Todos pararam. Meu anel sumiu!, gritou Niceia, ao mesmo tempo que caía de quatro no chão procurando desesperada pelo seu troféu.
Marli, escorraçada, é posta na rua, longe do bar, enxotada como um cão.
A sandália prata, sem um dos saltos...
A ponte, recém constituída, caiu de novo...
No rosto, os arranhões ensanguentados...
No corpo, hematomas por toda a parte...
No canto da boca, um sorriso...
O anel, agora era seu.

Niceia que ficasse com Negão.
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