terça-feira, 28 de setembro de 2010

O vaso

Droga, meleca, porcaria...

Hoje eu não saio daqui. Vou ficar bem quietinho. Ainda bem que tá frio, assim parece que eu ainda estou dormindo. Se abrirem a porta, fecho os olhos. Se chamarem meu nome, finjo que não ouvi. To sentindo meu coração na barriga. To sentindo um frio na barriga. Nem sabia que a barriga sentia tanta coisa assim. Até parece que foi ela quem quebrou o vaso ontem. Vou cobrir a cabeça com o cobertor e enfiar a cara na parede – assim a mamãe não me vê. Vai pensar que já saí prá brincar. Mas e depois, quando eu voltar? Como vai ser? Me escondo! É isto, me escondo, ninguém me encontra e vão ficar tão preocupados que nem vão se lembrar do vaso. O vaso, ai, o vaso... Quanto tempo precisa prá alguém esquecer alguma coisa? Os cacos já foram descobertos? Acho que sim. Não, acho que não, se a mamãe já tivesse encontrado o vaso morto, teria entrado no quarto e me tirado da cama. A Gabi viu e vai contar prá ela. Intrometida. Se ela contar prá mamãe eu conto que ela não é mais BV. Acho que isso é pior do que quebrar o vaso da bisa. E se não for? To danado... Que vontade de levantar. Não vou. Deus me livre! Como vou contar? Não vou contar. Conto ou não conto? Melhor não, ela nem vai reparar... Vai sim, ela repara em tudo. A culpa não foi minha, mas ela vai dizer que foi. Ela sempre diz que eu sou o culpado. Tô ficando com fome, queria tomar café. E sair daqui? Melhor não... Droga, agora a barriga tá roncando... Que barriga agitada! Vou me ferrar por causa dela – fica aí, roncando, cheia de fome, eu me levanto, vou prá cozinha e dou de cara com a mamãe. Essa barriga não tá me ajudando! Pára, barriga... pára! Vou dormir, isso... dorme, Tiago, dorme... Não consigo. Minha perna já tá doendo de tanto ficar aqui encolhido. A barriga roncando de novo... ai que fome... Meu Yakultinho... acho que ainda tem um na geladeira. E se a Gabi tomou o último? Ela me paga! Ai que fome!!! Vou levantar, tá tudo quieto... A mamãe deve estar dormindo ainda. Isso, levanto, tomo meu café, volto prá cama e me escondo de novo debaixo das cobertas... Isso mesmo... vou bem quietinho, sem fazer barulho, pé ante pé, ninguém à vista, corredor livre, porta da cozinha logo à frente, vai dar certo...

- Tiagoooooooo!!!!!

Droga, meleca, porcaria. Acharam o vaso...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Tempos de escola



Riobranquinos queridos.
Alguns perto, outros longe - mas às vezes sinto que ainda estamos na mesma sala. Talvez, esse seja um dos milagres da vida cibernética. Espero que curtam a pequena homenagem a todos nós - e que fiquemos com vontade de organizar o famoso happy hour!

Era uma vez uma mulher com saudade de ser menina. Ela queria voltar a brincar e ter colegas de classe. Sentia muita saudade dos seus tempos de escola. Não pensem vocês, que a saudade era dos professores de quimica, física, matemática, não, nada disso. O vazio era do pertencer à turma, dos colegas, das risadas, das broncas recebidas pelos professores – ou seja, das pessoas e das peraltices.

Como queria brincar, começou a pensar com o que iria se divertir. A vantagem agora era o poder de escolha. Sorriu para si mesma, queria brincar com palavras. Procurou uma casa, onde o saber imperava, os livros estavam por todas as partes e as letras... ah! as letras, poderiam ser agrupadas, cuidadas, mexidas e remexidas a seu bel prazer.

Um sonho começava a tomar forma.

Timidamente, no mês das águas que rolam, chegou à sua nova escola. Local aconchegante, azul da cor do céu. Sentou-se. Não precisou de muito tempo para ter a certeza de que os próximos meses seriam maravilhosos. Estava mais do que feliz.

À sua frente, ela, a professora. Gostou do tom da voz, sem conseguir definir se era grave, rouco ou meio agudo. Para ela, era suave. Deliciosamente suave, principalmente quando lia os textos a serem estudados. Fascinação.

Ao seu lado, professores sendo alunos, jornalistas libertando seus escritos, enólogos apaixonados, viajantes incansáveis, adolescentes criativos, de tudo um pouco. Daqui e de lá. Miscelânea. Melhor seria dizer, Babel mas no melhor da sua compreensão. Como o vinho, o tempo contribuiu para o entrosamento e amadurecimento do grupo. As brincadeiras começaram.

As letras combinadas formavam palavras que a cada semana alimentavam cada um de nós pela beleza de textos que produziam. Algazarra pura!

Porém como todo vinho, que depois de aberto e degustado chega ao seu fim, o tempo de brincar findou-se. O sabor, as sensações evocadas, os momentos vivenciados – esses ficaram. Diamantes lapidados e eternos.

E a menina, que naquelas aulas tomou o lugar da mulher, brincou, riu e se emocionou como há muito tempo não acontecia. Feliz, voltou a pertencer. E, para sua surpresa, agora também sente falta da professora.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Jetéme

Ela gostava do som...
Não tinha a menor idéia do que significava.
Queria saber mesmo, é se ficava bom com farinha.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Qual será o fim da historia?

Vou te contar uma historia...

Em algum canto, escondido na alma, repousava o Sonho. Preguiçoso, com pinta de acomodado mesmo. Não estava nem aí pra nada.


 
Um dia, sem mais nem menos, a Preguiça foi embora pois tinha muito menos o que fazer em outras praças - essa aqui estava começando a se agitar. Como lobo em pele de cordeiro - pelo lado avesso da historia da carochinha - assim que a Preguiça saiu, a Vontade apareceu com uma baita força.

Uma sucessão de fazeres e aprenderes, inofensivos na aparência, tiveram inicio.
Faz daqui, aprende lá, procura noutro canto, busca, pesquisa, encontra, conhece, e por aí vai. Cada passo, novidade, descobrimento ou luz nova, apontava em uma só direção: o reencontro com o Sonho. Favas contadas, deu-se o encontro.


 
No primeiro momento, como todo ver de novo, alegria, satisfação, tentativa de recuperar o tempo não vivido, botar o papo em dia. Como depois do um, sempre vem o dois, a empolgação inicial foi dando espaço para um visitante intrometido. Era o Medo.

Do tipo folgado, entrou, aboletou-se em poltrona confortável e olhava a todos de cima a baixo. Iria comandar a partir dali. Essa historia de reencontro, era papo de gente besta na opinião dele. O que era antes, permaneceria igualzinho agora - este era o seu mote. Queria mesmo, era chamar o cordeiro de volta...

Olha, a historia é longa... mas prá encurtar, que o tempo é pouco e todo mundo quer usar com propriedade, a Vontade bateu o pé e disse que de lá não sairia. Havia reencontrado o Sonho e tinha certeza que era prá sempre. O Medo, até que titubeou um pouco, diante de tanta firmeza. Combinaram o seguinte: ele permaneceria por ali, fazendo o papel dele. Se essa certeza toda da Vontade e do Sonho fosse prá valer, ele sairia aos poucos - mas nunca completamente.

Amigo, sinto dizer que esse causo não encontrou seu fim. Ainda continua, mas hoje está assim: Sonho, Vontade e Medo convivem de maneira quase harmoniosa. Digo quase, pois desde quando o Medo cumpre com sua promessa e fica quieto no canto? Se não fosse a Determinação ter aparecido nas redondezas, essa história já teria terminado, provavelmente do mesmo jeito que começou.


 
Quando eu souber qual foi o desfecho, volto aqui e te conto.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Quando os olhos se encontraram com as mãos

Eram pequenas e inconstantes.

Mexiam-se de uma maneira estranha, nem tremendo, nem nervosas, existindo apenas. Frágeis e enrugadas, cobertas por uma estranha camada branca, escamando levemente e buscando não se sabe bem o que, exibiam a potencialidade da vida.

Nascia ali, a filha.

Na posição em que ela se encontrava e de um corpo que acabara de sair do seu, as mãos foram as únicas coisas que ela viu. Um lampejo de boca miúda, de carmim intenso também passou na frente de seus olhos. Mas foi breve, muito breve... somente as pequenas mãos permaneceram por perto, alguns instantes a mais. Melhor assim, pensou ela, antes sofrer de saudades somente das mãos, do que já sentir a dor de ainda não ter o todo. Como se, por si só tivessem vida própria, as pequeninas se foram e, pacientemente, ela esperou pelo reencontro.

De todos os sentidos, a visão e a audição, foram as grandes privilegiadas. Uma, pela beleza da dança protagonizada pelas pequeninas mãos diante dos olhos e a outra pela força do choro que anunciou a certeza da vida. Entre o primeiro e o segundo “estar junto”, passaram-se horas construídas com segundos que estavam amarrados a pesos de chumbo. Ela não conseguia dormir, só pensava nos movimentos incertos que presenciara e que seus olhos tiveram a sorte de usufruir.

Felizmente, o tempo cumpriu com sua sina e passou, trazendo o reencontro. De todos os pensamentos que teve durante esta longa espera, nenhum deles – nem remotamente – aproximou-se do que na verdade aconteceu. Eram aproximadamente seis horas da manhã, quando a enfermeira entrou no quarto com o presente dos deuses em seus braços. Os olhos queriam pregar uma peça, pois rapidamente embaçaram a visão. Desta vez, nada iria impedir que o encontro fosse perfeito, muito menos as lágrimas.

Delicadamente, a vida foi colocada em seu colo. No mesmo instante, as mãos foram reconhecidas, assim como o carmim da boca pequenina e seu formato de coração. Com carinho, recebeu auxilio para desabotoar o pijama. Amparando a cabeça da felicidade em vida e assim, apresentou à boca o seio.

Nascia ali, a mãe.



domingo, 19 de setembro de 2010

Um pouquinho todo dia

Parece conselho de vó... De repente, é mesmo Seja lá o que voce quer, basta um pouquinho todo dia. Se voce ama, faça um carinho, todo dia... Se voce deseja, feche os olhos e sonhe, um pouquinho todo dia... Se a balança parece ser do contra, caminhe um pouquinho todo dia... Se é da saúde que voce quer cuidar, coma uma maça todo dia... Se é dor que voce carrega, perdoe um pouquinho a cada dia...

Primos

De maneira geral, sempre rola uma piada relacionada a este grau de parentesco. Do tipo tosco, sem graça e vulgar. Porém existe, em muitos casos, a cumplicidade. De que tipo? Explico. Aquela que, quando voce volta de um lugar longe e chega no lugar de onde partiu, o primo serve de guia, de referencia. É aquele que te deu a mão e voce reconheceu. Te disse, "vem aqui" e voce foi pois confiava no caminho que era apresentado. As palavras, não eram muitas, mas a segurança era total. A idade, era pouca. O carinho, era imenso. E com isso, voce entendeu onde estava.

domingo, 5 de setembro de 2010

Nem pior, nem melhor.

Eram cinco. Estavam praticamente todas sobre a mesma pedra à beira da praia. Os comentários dos adultos ao redor, giravam em torno da natureza e como esta reivindicava seu espaço de direito. “Na minha época, a praia ia até aquela escada... está vendo, lá longe? Foi praticamente engolida pela maré.” “No verão passado, eu já tinha que tomar minha caipirinha no calçadão, não havia espaço na areia, um horror!” “Dotô, num tem mais espaço... deve di sê Deus brabo cum as coisa que nóis faiz. Vô ponhá sua cadeira aqui prá mó de servir u sinhô e a Dona Patricia no capricho!” Alheias a esses comentários e tantos outros, as cinco crianças brincavam com a sensação do medo. As ondas vinham... as crianças pulavam nas pedras, seu porto seguro e gritavam... gargalhavam... som estridente, reconhecidamente infantil e chato. Calem-se, vociferei baixinho. Que alegria irritante. No ir e vir das ondas, meus pensamentos acompanhavam este movimento. Iam mal humorados, voltavam emputecidos. Como pode? De onde vem tanta leveza? Deve ser a idade... Idade esta que não se preocupa com qual é o dia da semana. Muito menos com o horário, temperatura, período de eleição, futuro... O que importa é aqui, este momento, sobre as pedras e as ondas que se aproximam. “Vamos fugir prá elas não nos pegarem!” Grito estúpido, de uma infância que me incomoda. Será que elas não percebem que independente de seus gritos histéricos, as ondas não irão parar com este vai e vem? Elas não percebem que com o passar dos dias, irão envelhecer, desistirão de subir nas pedras para sentir segurança, mudarão seu tom de voz e gritos – nem pensar! Engolirão, cada um de seus sons e, acima de tudo, terão a consciência de que os movimentos das ondas manterá o seu ritmo, mudando apenas de acordo com a lua? Oh, doce ignorância... Meu ímpeto era contar a cada uma delas o que iria acontecer. Mostrar os sinais em meu rosto de como o tempo passa, que isto é incontrolável e que as ondas não importam mais. Que podem gritar o quanto quiserem, ninguém vai ouvir. Muito menos se importar. Dia da semana, mês e ano são apenas medidas entre o nascimento e a morte. Passam, um após o outro, numa sequencia tediosa, longa e desinteressante. Em algum lugar do passado, não me lembro onde, eu também subi em uma pedra. Acho que aquilo se chamava vida. Hoje, é apenas mais um dia da semana.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Só dói quando ri

Sempre sabemos como surgem, mesmo quando queremos esquecer. Visivel ou não, contam historias, trazem memorias. Uma delas, aconteceu de maneira muito bonitinha. Do alto do beliche, o menino resgatou as historias que ouviu, os quadrinhos que leu e o filme que assistiu. Resolveu voar. Preparou-se todo, não seria um voo como o do Super Homem. Seria um voo de Homem Aranha! Esticou os braços, apertou com o dedo indicador o próprio pulso para liberar a teia, mirou para o além e foi... para o chão! De cara, a seco, não sem antes bater o lábio superior naquele que, antes prédio, agora era apenas o outro beliche. Mas ele voou... entre a projeção do pulo e o corte na boca, ele esteve no ar. Rápido, rapidíssimo, milésimos de segundo... ele esteve no ar! A boca, até hoje mostra o feito. Dois pontos, nenhum dente perdido e a certeza de ter voado. Orgulho. Dessa cicatriz aparente, ainda hoje, quando ela já não tem mais o mesmo tamanho de antes, sente prazer em contar o que aconteceu. Ele cresceu, ela encolheu. E as invisíveis, o que fazer com elas? Do mesmo jeito que a cicatriz Homem Aranha, as invisíveis tem sua própria historia e nome. Difícil orgulhar-se delas ou contar com o tempo para que diminuam. Dormem, fingem-se mortas mas tem vida própria. Mascaradas nas tarefas do dia a dia, basta um sopro, uma letra, uma música, uma foto, um link ou qualquer outro despertador de memória para que, como uma fenix, ressurjam das cinzas. Neste momento, o menino homem, passa a mão sobre os lábios. Sente a rugosidade leve da marca de infancia e suspira. Quem dera, todas fossem como esta...

domingo, 22 de agosto de 2010

Homenagem a Dona Lygia, a Alfacinha

Foi um dia de dor. Muita. Depois de noventa e oito anos, um marido, tres filhos, seis netos e nove bisnetos; de ter enterrado o marido e o filho do meio, ela resolveu ir também. O corpo já não respondia à sua vivacidade. Os olhos, mantinham os azuis claríssimos, belo contraste para os cabelos brancos que sempre chamavam a atenção. Quantas foram as pessoas que ao verem o algodão que decorava aquela cabeça, cerimonia totalmente esquecida e guardada, acariciavam a cabeleira e exclamavam "que coisa mais linda!" Assim era... linda. Mas como tudo nessa vida, um dia se vai... ela foi. Carnaval, aniversário do filho enterrado, talvez quisesse relembrar os momentos passados com aquele seu menino folião - ao som de "Bandeira Branca", foi matar as suas saudades. Esta introdução é apenas para apresentar ao leitor, bem superficialmente, Lygia, minha avó. O que realmente quero deixar aqui, é a sua oração predileta, que no dia de sua partida, coube a mim ler, para todos os presentes. "Deus nosso pai, que sois todo poder e bondade, Dai a força àqueles que passam pela provação. Dai luz àquele que procura a verdade. Ponde no coração do homem a compaixão e a caridade. Deus... Dai ao viajador a estrela guia, Ao aflito, a consolação Ao doente, o repouso. Pai... Dai ao culpado, o arrependimento Ao espirito, a verdade À criança, o guia Ao órfão, o pai. Senhor... Que a Vossa bondade se estenda sobre tudo que criaste Piedade Senhor, para aqueles que não Vos conhecem, Esperança para aqueles que sofrem Que a Vossa bondade permita aos espíritos consoladores, Derramarem por toda a parte a Paz, a Esperança, e a Fé. Deus... Um raio, uma faisca do Vosso amor pode abrasar a Terra. Deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita e todas as lágrimas secarão, Todas as dores acalmarão, Um só coração, um só pensamento subirá até vós com um grito de reconhecimento e de amor. Como Moisés sobre a montanha, nós Vos esperamos com os braços abertos. Ó beleza! Ó perfeição! E queremos de alguma sorte merecer a Vossa misericórdia. Deus... Dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até Vós. Dai-nos caridade pura. Dai-nos fé e a razão. Dai-nos a simplicidade que fará das nossas almas o espelho onde se refletirá a Vossa imagem. Caritas."

domingo, 1 de agosto de 2010

O presente

Nem real era. Pedra, papel, metal precioso ou tecido - nenhum destes materiais se aplicavam a ele. Nem líquido, nem gasoso. Muito menos sólido. Reais, dólares ou euros foram desnecessários. Fato impensável em uma época como a de hoje onde "vale quanto custa" parece ser a regra. Custo zero. O material utilizado foi a criatividade, aliada à emoção e a um rico acervo. Chegou aos poucos, em etapas, atraves de um email. Texto explicativo, ligeiramente jocoso, mas já antecipava possiveis consequencias. Uma lágrima aqui e outra ali poderiam aparecer. Na mensagem, um link - o caminho virtual dos tempos de hoje - que nos levam a passeios impressionantes. Por este caminho, imagens de ontem e de hoje foram sendo descortinadas. Uma a uma. Clique após clique. E lá estava ela, a Vida. Nascimentos, comemorações, férias, situações cotidianas e até a morte estavam lá representados. Alguns se foram, levados por Deus, outros se foram por um link diferente. Duzentos e oitenta cliques. Vinte anos de historia. Uma familia. Uma vida. Várias lágrimas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Se eu não entendo, pobre de voce...

Rapazes, venho aqui prestar minha solidariedade. Tres letras. Várias interpretações. Um significado. To Pronta pra Matar.Também Posso Morrer.TPM. Tanto faz, mas entenderam meu ponto de vista, certo? Geralmente conhecido como o período em que todo macho inteligente (e que goste da vida) se mantém afastado da femea. Qualquer femea. A sua ou a do outro. QUALQUER. Pode ser Angelina, Angelica ou Gisele. Ou voce acha que Brad, Luciano e Tom, não se arranham mensalmente? Ledo engano. O mais interessante é que, ao mesmo tempo que aparece esse gás todo, na linha "matar ou morrer" - a bateria acaba! Sério, acaba mesmo. Sei que voce não está acreditando, principalmente quando o surto de ira descontrolado surge, por causa da tampa da privada. As pernas doloridas e pesadas - sem ter passado pelo esforço da musculação no dia anterior - a sensação de que vinte e quatro horas equivalem a anos, a tentativa de dormir de barriga, gerando noites insones... Fim da bateria, fim da linha, ó dor, ó vida... E a fome? Caraca, de onde vem tanta? Tá bom, tá bom, larica pode até ser parecido, mas a diferença é que diverte, amolece e voce dorme. Além de ter companhia. Essa fome não... ela te persegue, tem foco específico - doces, chocolates e similares. De qualidade, claro, que até neste momento é importante manter a classe. Ferreiro Rocher devorado, minutos de satisfação e regozijo para logo depois... buáááá!!! Incontrolável, veloz, profundo ele vem sem a menor cerimonia. E voce chora por tudo: pelo emprego, pelo marido, pelos filhos, no comercial de manteiga, durante o Jornal Nacional, quando o telefone toca... e por aí vai. Chá, remédio, faltar ao trabalho, virar para o lado - nada dá jeito. Até o dia que ela vem. Bom, não exatamente no dia, no dia seguinte é certeza... Pássaros começam a cantar e, impressionante, voce repara que seu jardim está muito florido (deve ter sido o adubo organico que surtiu efeito em menos de vinte e quatro horas) Seus filhos são maravilhosos. Sua empregada, uma fofa. Seu marido... ah! Perfeito, um Adonis. E seu trabalho... nada melhor para manter a cabeça ocupada e sentir-se produtiva. Vida, plena e toda sua. Liberdade! ... Provisória, o alvará será suspenso em menos de 28 dias. Se eu não entendo, pobre de voce...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Metamorfose

Kafka escreveu. Raul cantou. A borboleta viveu. Eu, neguei. E foi inútil.

domingo, 4 de julho de 2010

Qual é a música?

Acordou de mau humor. Sem explicação. Tem gente que não acredita que alguém, só de abrir os olhos esteja de mau humor. Vou tentar explicar em poucas letras, sete para ser exata: D O M I N G O. Agora ficou claro? Mas ela não era daquelas que se entregava facilmente. Primeira alternativa, a TV. Pouco interessava o filme. Rotina é assim mesmo, mas a batalha não seria fácil, estava determinada a mudar esta rota de colisão. Filme infantil, Fábrica de Brinquedos ou algo parecido, com uma frase que logo despertou sua atenção. “A sua vida é um acontecimento. Certifique-se de estar à altura dela.” Era só o que faltava! Não bastava ser domingo e ainda recebia lição de moral da televisão. Resolveu levantar-se. Procedimentos higiênicos básicos, café da manhã, dá uma geral nos emails (os importantes ficarão para mais tarde), resolve ler alguns dos livros acumulados no criado mudo. A escolhida foi Clarice, A Descoberta do Mundo. Segundo passo para reverter o improvável. Percorreu a defesa de palavrões, a incredulidade diante do programa do Chacrinha, um dia de cólera (certamente Clarice escrevera aquilo em um domingo) e a possibilidade do SIM. Era demais, até Clarice resolveu dar lições de moral, possibilidades de vida e coisas do gênero. Quase revoltada, saiu para caminhar. Ipod em punho, mal humor na alma, passos lentos. Se a vida interna ia se virar contra ela, que pelo menos viesse acompanhada de uma trilha sonora decente. O que acontecia internamente, não precisava ser reforçado pelo exterior. Titãs na cabeça da dinossaura. O grupo começa cantando a fome, consolam Marvin, soltam os cachorros e outros bichos e confiam que o acaso os proteja. A alma começa a se expandir. Lentamente, a dinossaura vai se transformando. Remédio bom, pensa ela. Quero mais. A cada artista, uma letra, um sentido e um passo. Na clareira do parque, momento para uma pausa, senta-se. O que ouve não importa mais, pois o resultado começa a ser sentido por todo seu corpo. Os pés, antes militarmente ordenados, entram em completa revolução. A cabeça movimenta-se aleatoriamente, como se o vento a comandasse... Ela dança. Vencedora, volta para casa como se tudo o que precisasse saber na vida, tivesse sido revelado neste momento. O domingo existe, para que a gente dance. Seja lá qual for a música que se apresente, pois na segunda, começa outro baile. aqui, a musica é aquela que voce imaginar...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Exercício de pensar

Entrou na sala, procurou um lugar que lhe parecesse confortável e discreto. Sentou-se. Poltrona azul escuro, daquelas com braços gordos e acolchoados, sem saber ao certo qual era o estilo, mas reconhecia que havia uma parecida na casa de sua avó. Combinava, e muito bem, com o restante da sala - vários tons de azul, diferentes matizes e texturas, bem como formatos e tamanhos. Gostou. Começou a observar os demais participantes, cada um em seu lugar, todos sentados olhando para a mesma direção. ELA. ELA, estava em pé, de frente para todos, com um canetão branco na mãe esquerda e rabiscava algumas palavras, que formavam alguns conceitos na tela branca. A voz, simples e cativante, ia descrevendo características literárias, teorias, histórias e, aqui vem o que importa, apresentando personagens até então desconhecidos. Não para ELA, mas para eles. Encantou. Nomes famosos, lidos, filmados, cantados e declamados. Apresentados de tantas maneiras que a reação não poderia ter sido outra. Despertaram. A partir deste momento - e no conjunto de tantos outros que se apresentaram naqueles longos e deliciosos meses - o inevitável aconteceu. Criaram.

domingo, 27 de junho de 2010

Apenas tres letras

Tanto para formar a palavra, quanto no alfabeto, elas seguem a mesma ordem. D, O, R. Cismam em se juntar, quando voce menos espera. Muitas vezes, voce mesmo procurou ordená-las. Finge que não sabe o que fez, mas as letrinhas estão lá, para mostrar a consequencia de um ato ou de um fato. Nesses casos, além de paciencia, quatro letrinhas em ordem, também podem ser o caminho. A, M, O, R.

sábado, 26 de junho de 2010

Confraternização

Estar junto é um dos maiores prazeres que tenho. Se é com voce, nem consigo medir...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saudade

Tãntãntãn. Seco, rápido e sem espaços. Nunca foi muito religioso, não ia à missa, evitava enterros. Batizado, foi a um só. Em casamentos gostava da festa, de encontrar os amigos, tomar whisky sem gelo e temperado com água bem gelada, por horas a fio, mantendo o mesmo copo. Quando a água esquentava, pedia outra. E claro, mais uma dose. Por causa disto, no início causava estranheza o tãntãntãn noturno, diário, preciso, metódico e infalível produzido logo após murmurar a oração. Infalível sim, pois mesmo depois de uma festa de casamento o som era produzido. Ou ainda, quando chegava tarde da noite, após um jantar de trabalho ou happy hour com os amigos, como um autômato, sentava-se na beirada da cama, murmurava (mais parecia um grunhido), fazia o sinal da cruz, deitava, puxava as cobertas sobre o corpo fechava a mão esquerda e com o osso do dedo médio batia na cabeceira de madeira da cama de casal. Tãntãntãn. Seco, rápido e sem espaços. - Ninguém agüenta esse clima! Olha eu aqui, de novo, me descascando como uma cebola. Casaco, malha, cachecol, moletom, segunda pele... Eu mereço! Por instantes, foi despertada com a ladainha de sempre. Até sorriu. Silvana, sua colega de trabalho, sempre tinha alguma coisa para reclamar. No verão, excesso de calor. No inverno, excesso de frio. Primavera, outono... Carolina voltou os olhos para o computador e fingiu concentração. A proposta precisava ser terminada ainda hoje, na verdade, deveria ter sido terminada ontem. Mas ontem, estava tão longe que nem sabia quando era. Lembrou-se da foto. A festa a fantasia, o chapéu de papa, a batina. Sorriu, adorava a lembrança que a foto evocava. Riu de novo, pois achou engraçado lembrar-se de uma foto que a fazia lembrar-se de outra coisa. Devaneios, doces e totalmente inapropriados para a ocasião. Precisava se concentrar na proposta, mas seus pensamentos não estavam colaborando. - Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la. Voltaire, ele sempre citava Voltaire. Essa frase especificamente, que gostava de praticar com os outros, mas não em casa. Ai se alguém discordasse dele! Com os amigos, justiça, liberdade de expressão e todas aquelas baboseiras masculinas. Todas passíveis de compreensão e perdão hoje. Deveria tê-las perdoado ontem. Carolina estava longe novamente, com seus pensamentos na direção oposta à do computador em sua frente. Pausa para o café. A proposta vai ter que esperar um pouco mais, sua mente está indomável, com fome de passado. - ... e sabe o que ele me disse? “Quando uma pessoa se casa, a vaga de namorado fica em aberto”. Voces acreditam!? Quase caí de costas!!! Que saia justa, logo comigo! Carolina achou graça do comentário. Impressionante como tem cara de pau no mercado, mas com cantadas engraçadas. Podia ser brega, mas tinha a sua graça. Por um instante desejou que tivesse acontecido com ela esta situação. A colega se divertia com o que lhe acontecera e entretinha a pequena platéia da hora do break. “Se fosse comigo, o que eu faria?”, pensou Carolina. Terminou seu café, voltou para sua proposta. Concentração zero. Antes de recomeçar com a fatídica tarefa, deu uma olhada na caixa de entrada dos emails, abriu alguns e deixou todos sem resposta. Não sabia o que responder. - Tinha uma música, meio anos 90, que terminava com voyage, voyage. Carol, voce se lembra qual é? Claro que se lembrava e ele sabia disto. Ela parecia o “qual é a musica?”, acertando a maioria das respostas. Deu a dica para que ele pudesse fazer a busca na internet e depois fazer o download. Na verdade, baixar. Sempre achou isso feio – baixar – parecia coisa de terreiro, mas é assim que todo mundo se refere a este processo: baixar arquivo, baixar filme, baixar isso, baixar aquilo... Assim eles seguiam, ela se lembrava da música e ele fazia a trilha sonora. Desistiu da proposta. Quem esperou um dia, espera dois. Despediu-se de todos e, mesmo sem precisar, inventou uma desculpa qualquer para sair mais cedo – pelo menos, não iria enfrentar o transito infernal das 6 da tarde. E poderia alimentar a sua mente sem sentimento de culpa. Chegou em casa, chaves no pote, bolsa na cadeira da porta de entrada. Foi para a cozinha, abriu a geladeira, tirou o pote com o resto do almoço e ligou a TV. Assim, de pé, televisão ligada, comida fria e colher na mão, engoliu o macarrão com molho. Quinze minutos depois, joga tudo na pia, desliga a TV, apaga a luz. Volta, esqueceu de dar comida ao cachorro. Sobe os quinze degraus, entra no quarto, tira os sapatos. Carolina senta na beirada da cama, murmura uma oração, faz o sinal da cruz, deita, puxa as cobertas sobre o corpo fecha a mão esquerda e com o osso do dedo médio bate na cabeceira de madeira da cama de casal. Tãntãntãn. Seco, rápido e sem espaços, como suas lágrimas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Repente animal

O desafio era escrever uma paródia, tendo dois animais como protagonistas e rimando. Divirta-se! ====================== Seu Matuto, faça o favor de largar esse seu osso, que agora vou falar, senão pulo em seu pescoço. Meu cumpadi Caramelo, diga lá o que o aborrece, pois meu osso já está de lado, nem é mais de meu interesse. Então explique, ó cachorro, o que foi que aconteceu, pois Manuela, minha bela gazela, já era amor meu. E por conta de noticia fresca, não sei o que aconteceu. Dizem que ela agora anda é com um fariseu. De fariseu eu nada sei, mas compadre não se estresse, que mazela em nossa vida é algo que sempre acontece. A dor que hoje o acomete, ontem quem sentiu fui eu. A dama que ontem o amava, hoje quer é amor meu. Essas coisas não se explicam, foi só isso que aconteceu. Seu cão filho d´uma égua, isso não pode ser. Ontem mesmo falei prá ela, da paixão que me faz crescer... E sorrindo ela me disse, nunca vou te esquecer. Como pode em apenas um dia, o sol que pra mim brilhava, desse jeito desaparecer? Opa lá, compadre meu... Cuidado com o que vai dizer! Minha mãe não ta aqui, prá poder se defender. Posso até ficar nervoso e mijar em cima docê. Se o sol de hoje se foi, amanhã volta a nascer. Seu Matuto não se enfureça, peço apenas que me entenda. Abaixe logo essa pata, prá não piorar a contenda. Se o que me diz é verdade, nada posso fazer, apenas acabar o embate e esperar anoitecer. Quem sabe quando a lua chegar, ela me surpreenda e o amor que eu hoje perdi, venha outro como oferenda. E enfim, esta velha tartaruga, tenha alguém que o compreenda.
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